Me, Myself an Eye

Já é tão tarde. Charles Mingus e eu continuamos nossas longas conversas de madrugada. As vezes tenho a ilusão que ouvimos as mesmas notas. Charles parece bem mais sereno do que eu e no profundo pôster verde da parede ele respira lentamente. Eu não. Mas Charles me compreende. Ele sabe que estar dos dois lados é assim, atônito e incompleto.

Eu já atravessei o vasto oceano que alonga as nossas jornadas. Mas ainda não estou aqui. Também não estou lá. Estou no meio do caminho, entre as notas que ouvimos, Charles e eu, nestes 45 dias de encontros, abraços, apertos e olhares que fizeram desta viagem uma sinfonia de sentimentos controversos.

Nós andamos falando, Charles e eu, sobre estes dias de reencontro com Portugal e Galiza. Ainda vamos falar muito sobre isso. E com certeza, sabemos que é preciso decantar, para ver de fato.

Foi bonito voltar depois de uma longa ausência. Ver tantos que são de fato, meus, foi essencial para repensar os próximos passos, a partir do que já houve. Os que faltaram ver; ficam como a promessa de que não acaba aqui esta travessia, de que é preciso voltar e rever e refazer.

Foram dias intensos, sem descanso, sem espaço para decantar. Mas foi possível vivê-los bem porque passaram ao lado de gente amada, que fez de tudo para trazer o acalento quando os músculos sozinhos não davam conta do recado.

Charles e eu pensamos muito sobre o cansaço físico nestes dias e ocorreu-me o quanto o corpo pode sentir as emoções e ler na sua própria forma, a medida do coração.

Rever Portugal e Galiza, meus amores, nestes dias em que há tanta dúvida, em que se respira apertado e os corpos buscam, sem paragem segura, um espaço para o repouso, foi um desafio. Há tanto tempo sem o encontro, quando chegou a hora veio em forma de tempestade, essa colisão bonita, de sorrisos, lágrimas, abraços, histórias e acontecimentos que eu perdi e que generosamente queriam partilhar os que sentiram a minha ausência-presente. Bonito sentir que eu nunca fui embora de fato e que na re-chegada já estava tudo ali, pronto pra conversa continuar. Intensas estas conversas…

Resumindo, ficou-me no sentido que a despeito de toda dificuldade, de toda falta de repouso, de toda saudade e de todo amor não realizado, há a necessidade de prosseguir, em contato. Estas terras, também minhas, guardam o encontro, o amar, o desejo de ver de perto.

Eu ainda não sei, não parei de fato para saber. Mas intuo que eu fui desta vez para realizar uma previsão de Benjamim, que como Charles e eu, tem sentido no corpo a medida do coração. E foi com esta força do concreto, que ele profetizou: “O presente, sem passado, é obscuro.”

O meu passado nestas terras foi intenso, o presente dilacerou o corpo e o coração. Aceitei sem remorsos, porque senti que a despeito de toda profundidade dessa escavação, semeamos nessa viagem um futuro luminoso nestes meus três lares.

Boa noite Portugal. Bom dia Brasil. Cheguei. É hora!

Sermos uns para os outros

Há dias em que a vida é feliz. E ponto. Ontem foi.

Hoje tudo dói. E é difícil distinguir se dói mais o corpo, cansado, fisicamente exaurido ou se a dor vem da emoção, de tudo que por nós passa e perpassa outras musculaturas.

Hoje, mesmo com esta dor por todos os lados, há que reconhecer que ela é fruto de dois dias de felicidade dilatada.

Estamos de volta, Miguel Barriga e eu, de dois dias duros e cruéis e profundos e desafiadores e contraditoriamente felizes.

Fomos para Montedor. E lá fomos para estar com ele – um pouco gente, um pouco ícone – ele, que está vivo, que me esperou e me aceitou.

Benjamim Pereira, do alto de seus 85 anos e com extremas limitações físicas disse sim. Disse que podíamos ir. E fomos.

Benjamim concordou que eu fosse a Montedor gravar um poema com ele e sobre ele. Há algumas semanas lá fomos lhe pedir, Domingos Morais e eu, que considerasse a hipótese. Três semanas depois, com Miguel, chegamos ao seu castelo e ele nos recebeu ofegante.

Houve ali alguma dúvida, eu sei. E eu entendo. Fazer um filme é como fazer um livro, é como fazer um filho. É um ato de intimidade profunda. Há de haver consenso e amor.

Benjamim já não sabia bem se era o caso de se revelar. Tão lúcido e efervescente seu pensamento e tão frágil, traído pelo corpo físico. Eu não pude lhe deixar. Só pude olhar nos seus olhos e dizer: «Vamos fazer o seguinte; eu confio em você e você confia em mim.» E sem lhe dar outra hipótese, comecei.

Nestes dois dias, eu o invadi. Com amor, com respeito, com carinho, mas o invadi. Foi doloroso para mim lhe pedir tanto, tão intensamente, tão fisicamente.

Por alguma razão, ele cedeu. Talvez tenha percebido, o que fazíamos ali, juntos. E depois de alguma dúvida, aceitou profundamente e decidiu dizer o profundo.

Contou-me sobre as suas próprias dúvidas, e nelas, reconheceu as minhas. Falou-me tanto, já sem forças, quis continuar – uma delicada forma de dizer que afinal estava grato por termos todos continuado, juntos.

Nestes dois dias, de uma felicidade salgada, chorei mais do que devia. Não pude conter. Nós dois sabíamos a dada altura que este tinha o sabor do último dos nossos encontros, sempre tão intensos. Como de costume, ele disse-me coisas que vão nortear muitos dos meu próximos passos. Foi generoso ao comentar os filmes novos que havia lhe deixado. Foi pontual ao apontar o que se passa no mundo e como olhar para frente de tudo isso. Foi honesto e coerente ao partilhar as experiências que teve e poderoso ao indicar o porque me dizia o que dizia e marcou com energia o que me queria dizer.

Abracei-o de todas as formas que pude. Não queria ir na hora que sentimos que era o fim. Pelo menos daqueles dois dias, era o fim. Decidimos combinar que eu voltaria logo e que ele ficava de me esperar. Temos feito isso há alguns anos. Tem resultado.

De certa forma, em Montedor, estamos todos a salvo. Paira ali um tempo de viver o tempo.

Na saída, fui agradecer a Linda, que o tem cuidado tanto. E ela disse com um ar tão natural: «Ora, mas é claro, temos que ser uns para os outros. Senão, como seria?»

Olhei para dentro e vi Miguel Barriga, que pegou no seu tempo, talentos e máquinas, e foi por nós. Sem palavras Miguel para dizer o quanto foi isso… O tempo te devolverá. Oxalá venha de volta o tanto que isso foi. Olhei para dentro e vi Domingos Morais que tem sido por tanto tempo, por tantos de nós… Nem todas as palavras poderiam dizer o quanto isso vale. Olhei de novo e vi o Pedro Morais que eu nem soube, emprestou parte das máquinas. E só pensei: que bom ter famílias por nós neste vasto mundo.

Olhei mais uma vez e vi a Linda, passando com o chá para o Benjamim, enquanto desmontávamos as máquinas pelo pátio do castelo.

Já era noite alta. E era preciso regressar. O sul estava a nossa espera. Pela luzes frágeis entrevi mais uma vez o senhor do castelo e seus olhos brilhantes. Sorriu contente com a minha impertinente visita.

Ficou acordado que sempre teremos Montedor, onde a vida nos ensina a importância de sermos uns para os outros.

Uma janela para o mundo. Montedor, 2014.
Uma janela para o mundo. Montedor, 2014.

Estou te escrevendo de um país distante

Isaac meu caro amigo,

Estou te escrevendo de um país distante.

Ainda não tive tempo de ir lá ao seu email e responder como se deve. Aí vejo lá no jornal do bairro umas tantas curtidas suas nas minhas notícias. Vi você dizendo que estava contente de saber que eu andava aqui tão longe, representando aí… tão longe.

Então me vem aquele calor do Norte no peito e agora lhe escrevo. E lhe escrevo de um país distante. Distante, como o nosso.

Eu os vejo, os dois, sempre tão próximos. E próximos, cada um a seu modo, de estar ali, com os seus (nossos) maiores sonhos concretizados. E ainda assim, não estamos ainda, próximos.

Nos dois lados, são grandes ondas e há lutas, de vários gêneros – como se diria por cá. Os dois estão em auto batalha em busca de um governo que lhe governe, que seja de fato de todos nós, o povo.

Difícil dizer como me sinto, porque não me sinto como vejo a volta: uma vaga de cansaço e um sentimento de que roubaram a esperança. Aqui, confronto tantas vezes com um amortecimento profundo, forjado por decepções sucessivas. Penso em nós do outro lado e sinto que o cansaço pode vencer se não tivermos sempre atenção ao começo do caminho.

Aqui também vivo dias de um conforto esplêndido, de andar ao lado da vida real, transitando pelo mundo e revendo as melhores gentes de sempre. Nos dias em que a realidade rasga essa viagem, dói um pouco o peito e no terceiro transporte público do dia com chuvas fortes, há uma vontade ali no canto que deseja amortecer.

E é nessas horas que a chuva tem de servir de transporte para outros dias, ali correndo em gota na janela. E aí eu os vejo, eles que viveram mais que eu, que enfrentaram outros contratempos e desafios e que ainda andam por cá, já sem a necessidade de confrontar, mas em posição de enfrentar. Os que nos inspiram, os que seguram na nossa mão e nos levam com o cuidado de dizer: enxerga mais longe, olha para aquele lugar distante do começo do caminho. E ajuntam, apressando lentamente: Já vês?

Eu por vezes não vejo querido Isaac, mas sigo, meio que no rastro do cheiro do começo do caminho. E agradeço pela chuva – nem que seja pelo bem dos agricultores.

Te revejo em breve, nos pertos de um país distante, não é mesmo?

Com amizade,
Lia

Nas praias de Benjamim
Nas praias de Benjamim.

10 ANOS DE PORTUGAL…

Hoje é dia de arrumar a mala! Estou chegando Portugal!

Sim, passaram 10 anos desde aquele efervescente 2004 no qual atravessamos o oceano rumo a Portugal! Uau… que emoção que foi…

Eu e o cumpadre Stein, seguidos pelo cumpadre Zig, encaramos nossa primeira aventura portuguesa. Quem diria que viriam tantas mais… Quem diria que seriam tantos sertões, tantas oficinas de tocadores, tantas rotundas, tantos “desculpe lá”, tantos amigos, tantos Alentejos, Açores, Minhos e Portugais.

O que começou com um amor a primeira vista, virou família. Portugal é também minha casa, lá está também minha gente, encontro naquelas terras, também a minha história.

Depois da primeira aventura com os grandes parceiros Zig e Stein, tive por lá muitas jornadas. Tanta gente que virou parceira. Impossível listar todos, mas não dá pra não dizer que sem os cavaleiros andantes Carlos Pedro, Luís Fernandes, Luís Moura, Pedro Mestre e Celina da Piedade (sim, também há mulheres neste exército) não seria possível ter visto o país como vi. Eles me acompanharam muito nos meus primeiros olhares e nos meus olhares através do tempo. Nossa, penso em vocês e me vem um amor no peito… Obrigada irmãos, sem vocês Portugal seria outro.

Sem Domingos Morais não haveria nada. O meu professor e mestre e conselheiro e amigo. Domingos teve e tem para comigo uma cota de generosidade infindável. Não bastasse tudo que fez, abriu-me as portas da família e com Teresa, João, Joana, Pedro, Tiago e toda a família Morais me deu uma casa e uma família portuguesa.

Aff… e Joana, Carla, Filipa, Lúcia, Miguel, Rui (Vaz e Jr.), Zé Manuel, Manuel e Luísa, Conceição, Fernando, Mário, Gonçalo, Zé (vários e em especial o Moças), Elisa, Guida(s), Diana, Léa, Barbara, Mercedes, Ramon, Laura, Paulo, Patricia, Chico, meu Deus, sinto que preciso continuar, e são ainda tantos os fundamentais. Não vou conseguir dizer aqui todos, mas paro esta lista cheia de rostos na cabeça. Não esqueci de vocês e de como transformaram meu olhar sobre o mundo.

Sem eles meu Portugal não teria graça, não teria cor, não teria gosto e não teria amor. Não teria baile e nem teria sentido.

E os tocadores então? Eles, que me levaram até lá e que hoje, revisitando o extenso material ainda não publicado que fiz em 2004, 2005 e 2006 com as infindáveis entrevistas a mais de 50 tocadores portugueses, encho os olhos de lágrimas. Bernardo, Laura e Amélia, Roque, Manuel Bento, Maria Mariana, Caxadinha, Arture!!!… Meus sais minerais – tenho que publicar esse livro! Não morro contente se não partilhar estas conversas… Tem que ser. Havemos de dar jeito. Já são dois livros lá, mas é preciso este terceiro.

Andei por tudo um pouco naquelas terras e ainda assim, falta tanto por andar. Movida por isso e pelas palavras do genial Benjamim Pereira, que é para mim, a memória mais sonhada e mais viva do Portugal que eu desejo, vou voltar!

É hora! A saudade aperta, a vontade emana! É tempo de rever Portugal!

E já sinto, vem nesta viagem o novo! Como veio em 2004! E como diz Benjamim, o grande: “Não tenham medo do futuro!”

É isso Benjamim! Estou chegando e vou para vê-los, todos vocês, que fazem desta terra, um lugar maravilhoso, um lugar intenso e vigoroso, de arte e de amor, de compartilhar e de continuar a alimentar o sonho!

Estou chegando Portugal!!! Te vejo no dia 21 de setembro! E fico um pouquinho por aí, ok? Outubro de reencontros… Me espera que é já ali.

Feliz, no Alentejo, 2004. Foto: Zig Koch/Projeto Tocadores.
Feliz, no Alentejo, 2004. Foto: Zig Koch/Projeto Tocadores.