10 anos de Mandicuera!!!!

Escrevo este post para celebrar 10 anos da Associação Mandicuera. Mas na verdade já são mais que 10 os anos que passaram entre hoje e aquele dia, em Paranaguá, batendo papo com Sr. Anísio e Heraldo, que já não me lembro bem porque vendiam instrumentos em uma barraquinha na cidade em alguma festa.

Eu queria ir à casa de João Busa, mas eles não podiam deixar a barraca. E foi aí que chegou um moço que eu nunca tinha visto. Era amigo do pessoal e estava de varde por ali e também tocava e pintava e podia me levar na casa do Busa.

E foi assim que nasceu a minha conversa com Aorélio Domingues. Parece que ela nunca acabou. Até hoje, aqui na Olaria ou na Mandicuera, nos intervalos das oficinas, gravações, na estrada, até no avião a gente já teve tempo de continuar esta conversa. Eu sempre acho que falamos da mesma coisa ou serão tantas coisas tão diferentes, que a conversa continua fazendo sentido, continuamos sentindo a necessidade de conversar.

Ao longo destes anos, os 10 da Mandicuera, os 17 do Tocadores, e algo no meio disso que foi onde nos encontramos, ajudaram a forjar amizades e intensidades. Com Aorélio, com Poro, com o Fandango, com o associativismo, com tantos que passam por estes dois projetos, um pouco amigos, um pouco irmãos.

Lembro de tantas coisas. De dias ruins, dias bons, dias de desespero e cansaço, dias de glória e de vitórias saborosas. Não dá pra contar tudo.

Eu até gostaria de contar as inúmeras piadas impagáveis do Aorélio ou reclamar abertamente da mania ingrata que ele tem de me pregar peças durante as gravações dos filmes (que com ele em particular, já são cinco!).

Mas já que é para escolher uma história, vou ficar com um momento em que as pessoas provam seus compromissos e honram seus planos mais sonhados.

Primeiro dia de gravação do documentário Fandango – dança tradicional do Paraná. Maior produção para juntar os pares, os músicos, destelhar o salão do fandango para entrar mais luz, acertar roupa, cabelo, sapato de todo mundo, ensaiar com eles como íamos gravar as danças naquele pequeno espaço e deixar tudo pronto.

Tudo pronto e veio a notícia: João Busa, nosso amigo, mestre de fandango, capelão, companheiro de conversas, condutor da nossa conversa, a quem Aorelio devia a promessa de cantar o terço no velório havia falecido. Gelamos. Todos. Silencio. Tensão. Lágrimas. Tristeza.

Aorélio foi pra Capela do Divino, que naquela época já estava em pé. Depois de um pouco, cheguei lá, olhei nos olhos marejados do amigo e perguntei: “E aí? O que é que você quer fazer?”

Gravamos o dia todo com as mais de vinte pessoas que ali estavam para fazer o filme. Acabada a diária, fechamos o dia, Aorélio, Poro e eu, no velório do nosso amigo Busa, cantando o terço e fazendo a segunda parte da obrigação.

No dia seguinte, gravamos de novo e no outro também e mais alguns ainda. E nestes mais de dez anos, Poro, Aorélio e tantos outros seguiram o trabalho, o projeto, o baile, a tradição, a viola, a fé – na vida e na arte. E principalmente na capacidade mágica de ser, humano.

Parabéns amigos. E que venham muitos anos mais para continuar a conversa.

Imagem histórica! A sede da Mandicuera em 2008.
Imagem histórica! A sede da Mandicuera em 2008. Foto: LM Stein

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Foto clássica do documentário Fandango, mas nesta, entrei no meio...
2010. Foto clássica do documentário Fandango, mas nesta, entrei no meio… Foto: Toni Gorbi

 

 

Na estréia do documentário Fandango, homenagem aos grupos Mandicuera e Mestre Brasílio. 2011. Foto: Olaria Acervo
Em 2013, festa na estréia do documentário Boi de Mamão.
Em 2013, festa na estréia do documentário Boi de Mamão. Foto: Priscilla Fiedler

 

 

 

 

 

 

Encerrando com chave de ouro o Seminário Música sem Fronteiras na Mandicuera. Detalhe: Nemésio no Ipad, registrando o momento histórico!
Encerrando com chave de ouro o Seminário Música sem Fronteiras na Mandicuera. Detalhe: Nemésio no Ipad, registrando o momento histórico! 2013. Foto: André Magalhães
Aorélio, na nossa conversa que nunca acaba. Muitos assuntos e sempre um: continuar.
Aorélio, na nossa conversa que nunca acaba. Muitos assuntos e sempre um: continuar. 2012. Foto: Toni Gorbi
Com as Danças do Alentejo na Mandicuera. Um dia para guardar no coração. Aorélio, Poro, Saci, Domingos e Teresa. E claro, o Barreado. 2011.
Com as Danças do Alentejo na Mandicuera. Um dia para guardar no coração. Aorélio, Poro, Saci, Domingos e Teresa. E claro, o Barreado. 2011. Foto: Lia Marchi
Porp, homem forte da Mandicuera, calma e inteireza nas horas mais importantes. 2008, Bastidores doc. Divino.
Poro, homem forte da Mandicuera, calma e inteireza nas horas mais importantes. 2008, Bastidores doc. Divino. Foto: Maurício Osaki
Em 2008, bastidores do documentário Divino, reunidos com a bandeira de Mestre Naico, de Guaratuba, na Mandicuera.
Em 2008, bastidores do documentário Divino, reunidos com a bandeira de Mestre Naico, de Guaratuba, na Mandicuera. Foto: Toni Gorbi
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Onde reside o amor

Antes de conhecê-lo, já era admiradora da sua vasta obra. Nas minhas tardes de etnologia com o Tejo ao fundo, descobri as palavras e submergi nas impressionantes imagens que o etnólogo português Benjamim Pereira produziu ao longo de décadas de um contributo inestimável para a história e a cultura de seu país.

Incansável, inacreditável, intangível. Pleno e com espaço. Um homem, que visto de perto, foi ainda mais impressionante.

Já contei muitas vezes esta história, mas é tão decisiva, que volto a ela: A primeira vez que o vi ao vivo e a cores, em Idanha-a-nova, fui arrebatada pelo seu espírito inconfundível. Benjamim nos disse: “O futuro? Ah, o futuro… Não tenham medo do futuro!”

Não foi apenas o que ele disse, mas como ele disse. Ele já tinha me ganhado muito antes. Mas ali… pronto… Nascia um grande amor. Pelo mestre, pelo exemplo, pelo desejo de ser melhor.

Não sei se ele saberá um dia o impacto destas palavras. Bonito, no frescor da dúvida, ouvir um mestre que tanto lutou, perdeu e ganhou, dizê-las com tanta certeza (ou seria, leveza).

Algum tempo depois, naquilo que por vezes chamamos sorte, mas que na verdade é dádiva, tive a sorte de tê-lo no lançamento do meu livro Tocadores Portugal – Brasil: sons em movimento. De passagem por Lisboa, rumo aos EUA, ele foi.

Lá estavam, naquela inesquecível sessão preparada pelo também meu mestre Domingos Morais, amigos inestimáveis: Rui Vaz, Zé Manuel David, Amélia Muge, Zé Barros, Celina da Piedade, Barbara Alge, Conceição Correia, Lucia Serralheiro, Ana Paula Guimarães, os Tocá Rufar com uma orquestra de bombos que invadiu a universidade e muitos outros. Foram todos cantar de surpresa na festa e lá estar em conjunto, em festa… Vejam só que lindo…

Benjamim havia cedido algumas de suas imagens para o livro em uma carta de próprio punho que eu recebi com tanto orgulho, com tanta emoção muito antes deste dia em que o encontrava cheia de alegria.

Vê-lo ali, comigo, depois de tantas idas e vindas pelo nosso Portugal – as dele, muitas mais que as minhas – rodeados por gente tão fundamental para a música tradicional portuguesa, todos em festa, era um sentimento quase de transcendência. Ali estava o amor.

Entre os bombos e as visitas queridas, não resisti. Tinha de lhe perguntar, o que achava ao ver o livro pronto. Sempre um risco. De homens como ele, sairá sempre sinceridade.

Não conto suas palavras – são só nossas – mas digo que me deram novas levezas, velhas certezas. Não as esquecerei. E de novo, não foi só o que ele disse, mas como ele disse.

Sempre que o visito, ao vivo ou em pensamentos, saio com tanto. Sinto que fiz ainda tão pouco, sinto que há tanto por absorver deles, os mestres. Já somam um bom bocado nossos encontros pela vida. E são ainda tão poucos…

Benjamim: hoje tive notícias suas. E vou dormir com a promessa de que vamos nos rever neste ano.

Bons sonhos, aos mestres e aos que tem a dádiva de tê-los.

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Com Benjamim e Domingos, rodeada pelos mestres. Feliz. 2009.

 

 

 

 

 

Com Benjamim, em dia de festa, lançando o livro Tocadores Portugal - Brasil: sons em movimento. Lisboa,  Universidade Nova. 2006.
Com Benjamim, em dia de festa, lançando o livro Tocadores Portugal – Brasil: sons em movimento. Lisboa, Universidade Nova. 2006. Ao fundo a amiga Conceição Correia e na blusa, o presente feito pela Amélia Muge. A nossa frente, fora da foto, Celina no Acordeom e Zé David na gaita. Ali, naquele dia, residia bem forte, o amor.

Carimbó!!!

Momento importante para o carimbo! Lá no Norte, hoje mesmo, todos reunidos em Belém com mestres e lideranças do Carimbó de Marapanim, Santarém Novo, Curuçá, Terra Alta, Salinas, Colares, Vigia, São Caetano de Odivelas, Santa Bárbara do Pará, Maracanã, Irituia, Belém, Ananindeua e Marituba, entres outros, para em conjunto fazer valer o processo de registro do carimbó como patrimônio cultural do Brasil, processo que também viveu nosso fandango caiçara.

Um processo que no caso do carimbó começou em 2006 e agora chega a mais uma etapa, mais uma vitória, pelo registro, claro, mas a meu ver, antes disso, pelo processo, pelo envolvimento, pelo exercício da articulação e da valorização do fazer junto.

Eu que acompanho meio longe, meio perto esse caminho tão bonito, que recebo sempre novas do amigo Isaac Loureiro, aqui do Paraná sinto hoje o calor sufocante do Norte no peito e quase que estou lá, em pensamento e em desejo de ver esse processo continuar, seguir rumo a outras conquistas, individuais e coletivas – pois claro, quando escolhemos trabalhar em conjunto, mudamos, cada um de nós, a seu modo, a seu tempo.

A vontade de ver é muita, a vontade de abraçar os amigos é muita, a vontade de estar no baile para celebrar, essa é sem medida. Viva o carimbó! Viva todo mundo que lá está! Viva a tradição brasileira e viva os sons do mundo!

E para quem quer saber mais sobre o carimbó e seu registro como patrimônio:

Blog da Campanha do Carimbó

Campanha do Carimbó no facebook

Consulta Pública Dossiê do Carimbó / IPHAN

Em tempo:

CAMPANHA DOE UM PALETÓ PARA O CARIMBÓ

Rejane Nóbrega teve uma idéia genial e lançou uma campanha para ajudar o Carimbó de São Benedito no Pará.
Esta comunidade, da qual faz parte o nosso amigo Isaac Loureiro, organiza uma festa tradicional de 11 dias. Durante este período, para entrar no barracão e dançar o carimbó os membros devem estar trajados com paletó e gravata.
Se você está em Curitiba e pode colaborar, deixe seu paletó aqui na Olaria – Projetos de Arte e Educação e faremos chegar até a Rejane.
E quem quiser saber mais, fica a dica para conhecer: https://www.facebook.com/carimbo.saobenedito?fref=ts

Tocá Rufar!

Fevereiro passou meteórico e março chegou com uma triste notícia.

No dia 1 de março, pelas 15hs ardeu o TamborQFala, a casa dos Tocá Rufar.

O que dizer de uma dor como essa?

Nem consigo imaginar o susto, o surto, a silêncio de tal som.

Ao receber pelo mailing da Tocá Rufar esta notícia, só é possível abraçar bem forte toda equipe e Rui Júnior, figura impar, que sempre foi para mim e para tantos uma inspiração de idéias, de atitudes, de capacidade de realização.

O mais latente de tudo isso é o comunicado que informa que apesar do ocorrido haverá ensaio no Domingo e que é preciso que tragam os instrumentos que tiverem em casa e completa:
“Eram os bombos que morriam lutando, gritando para que não desistíssemos nunca.
Agora é o momento.
Entreguem-se! Revelem-se! Superem-se!”
Inacreditável o potencial humano dessas figuras que revelam na maior adversidade o verdadeiro calor.
Ao Rui e aos amigos do Tocá Rufar um abraço atlântico e uma reverência: pela força, pela coragem, pela retidão dos propósitos.

E com bombos marcamos: Tocá Rufar! Tocá Rufar!

*Informações, imagens e DONATIVOS PARA O BOMBO*

Parabéns D´Orfeu!

Neste dia 4 de dezembro a D´Orfeu Associação Cultural completa 15 anos de aventuras!

Do início, com os multi sons de Artur, Luís, Bitocas e Rogério, aos dias de hoje em que se juntaram Lea, Joca, Silva, Rui, Evelina e tantos mais, nossos amigos da D´Orfeu agitam Águeda e o mundo com projetos, realizações e idéias para o futuro.

Acompanhamos a associação desde 2004, quando realizamos nossa primeira viagem de pesquisa a Portugal. L.M.Stein (produtor), Zig Koch (fotógrafo) e eu, aportamos em Portuga e de saída conhecemos a D´Orfeu. Desde então, sempre que passamos pelas terras lusas, tentamos incluir Águeda no roteiro.

Consolidando as amizades e parcerias entre a D´Orfeu e a Olaria, o músico e produtor Luís Fernandes (um dos primeiros a apoiar o projeto Tocadores em Portugal!), em viagem de prospecção pelo Brasil, escolheu Curitiba como sua primeira parada para conhecer de perto nossos projetos, grupos e artistas da cidade e de quebra, dar um pulo ao litoral paranaense para ouvir um fandanguinho.

Esperamos que destas viagens todas, resultem novas parcerias para deixar Brasil e Portugal, Águeda e Curitiba mais próximas.

Parabéns D´Orfeu e seus valentes!

Leia mais em: http://jornal.publico.pt/noticia/02-12-2010/tudo-comecou-com-quatro-irmaos-em-busca-de-mais-musica-20733550.htm

E conheça o trabalho da Associação em: www.dorfeu.pt