Não se esqueça

Já era fim de noite, ou melhor dizendo, o dia já tinha começado há algumas horas. E lá estava eu nas minhas – dizem por aí – intermináveis despedidas. Era de novo o dia da festa de José Moraes e de sua família.

Seu José e sua Romaria de São Gonçalo entraram na minha vida há alguns anos. E nestes anos vivemos as mais diferentes versões deste dia. No primeiro deles não nos conhecíamos o suficiente e eu lá estava como espectadora, “chegando agora”, todo mundo na espreita. No segundo já éramos conhecidos e já tínhamos a conversa do filme bem estabelecida. Houve um ano que não teve festa e ninguém lembrou de nos avisar. Chegamos lá e passamos o dia com a família planejando o futuro filme. Os anos passaram. O plano virou realidade.

Ano passado lá chegamos e Seu José não ia fazer a festa por conta da enchente. Saímos de lá com a festa e o filme feitos. Saí de lá com uma amizade de vida toda. Daquelas de quem viveu junto algo que não se esquece.

Neste ano, fomos à festa como quem vai de visita. Apesar da responsabilidade de passar o filme na comunidade, eu fui sem pensamentos e planos, fui só feliz.

Em geral, exibições alternativas me dão calafrios. É sempre como é possível fazer. Mas já faz um tempo que eu entendi que é sempre melhor passar do que não passar. Enquanto não chega a sala de cinema no interior do Brasil, chega o filme: possível, viável, respeitando a realidade e querendo fazer parte dela.

Foi tão bonito. Na sala da Romaria, montamos uma tela e ajeitamos o projetor entre os bancos. Na sala, por volta de umas cento e cinqüenta pessoas. Seu José e eu ficamos sem banco, assistimos meio ajoelhados no chão – quase pagando promessa. (risos meus)

Naqueles 22 minutos virei a cabeça muitas vezes. Seu José sorria contente, acho eu relembrando aqueles dias. Dona Cecília, matriarca da família, bem acomodada numa cadeira de honra na primeira fila, abanava a cabeça em concordância com suas palavras ali registradas.

Muitos rostos que eu não conhecia estavam tão atentos, tão silenciosos, umas caras tão bonitas ali naquele hiato de tempo, naquele estar na festa e repensar a festa. Rever seus sentidos e valores por meus olhos alheios e arrisco – próximos também.

Naquela noite uma alegria especial. Ano passado, enquanto rodávamos o filme da Romaria, eu ligava com freqüência pra outra comunidade, a das Benzedeiras de Rebouças. Dona Agda, nossa amiga e nossa personagem do então próximo filme, vivia uma situação difícil. O neto de 3 anos sofrera um grave acidente e podia morrer. Ela pediu que na festa fizessem uma intenção por ele. No filme, lá estão no altar as velinhas acendidas e pedidas por Dona Cecília. Este ano, sentada logo atrás de mim na projeção, Dona Agda foi à festa contar sua história, dar a boa nova da cura com o neto no colo, levar seu abraço de gratidão pelo apoio e talvez – isso sonho eu – pensar em quando é que veria o seu filme pronto. Já rodamos com elas e por lá já perguntam quando é que eu volto com o filme, contou-me ela.

Ter os dois filmes juntos, ali naquele hiato de tempo, um que foi e um que vai sendo, naquela sala, assistindo o passado, vivendo nele o futuro, foi algo que não sei dizer, mas quero sentir mais.

No fim de tudo, dois comentários geniais: Érica de 4 anos queria saber como conseguimos por a televisão tão grande na parede. Dona Cecília de 83 suspirou com pena de não termos podido colocar no filme as 8 horas da festa inteirinhas, todas lá. Cada um com os seus sonhos… Acho bem.

Nas despedidas, que eu digo logo não são nada intermináveis. São profundas, isso sim. E tem de ser. Com os olhos mesmo, nos vemos uma vez por ano. E agora, filme feito, nem isso se não calhar. Nas tais despedidas muitos vem me dizer: “Não se esqueça da gente.” Dizem isso com a mão tão apertada, tão agarrada. Como é que eles podem pensar que eu poderia esquecer? Fazemos parte. Vivemos algo de grande e fundo todos juntos. Eu nunca esqueço, mesmo quando não vejo com os olhos. Eu nunca digo isso. Parto do princípio que ninguém vai me esquecer. E mesmo quando alguém me esquece e preciso me apresentar de novo, eu sinto ali aquele sentir que não se diz em palavras…

Quase final de despedidas eu e Sr José no salão, mãos dadas em aperto, contentes, eu disse algo como “missão cumprida” e emendei num: “eu gosto do senhor, seu José”. Ele respondeu antes com o sorriso e emendou com um profundo: “Se gostemo!”.

Seu José, eu e Dona Agda, na Romaria de 2015. Felizes com a vida, com a festa e com os filmes.
Seu José, eu e Dona Agda, na Romaria de 2015. Felizes com a vida, com a festa e com os filmes.
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A minha roseira encarnada…

 Como não há outra igual

Tenho lá no meu quintal

Aquela linda roseira

Já vai se fazendo mais um filme.

É noite aqui em casa. E apesar de ser já tarde, as crianças ainda brincam. Mas andam trânqüilas com a música ao fundo desenhando entretidas, e consigo escrever.

Normalmente prefiro fazê-lo na profunda solidão da noite, que me confronta com o que há no mais lá dentro de mim. Que me pergunta no silêncio: que andas tu a fazer dos teus dias?

Hoje, neste jardim de sons e risinhos, entrevejo outros jardins. Aqueles que deixei para trás há só dois ou três dias. Suas donas lá estarão, também na noite, entretidas.

Faço esta concessão de escrever no meio dos sons e passinhos barulhentos porque este filme foi mesmo isso: um jardim selvagem. Que nos domina e nos torna parte da paisagem.

Desde sempre, desde os primeiros caminhos para o filme sobre as Benzedeiras de Rebouças e São João do Triunfo, foi assim essa mistura dos meus necessários silêncios com as risadas e o coro animado, sempre em volta.

Não podia ser de outra forma para um filme que mistura exatamente isso: o silêncio e o clamor.

Quando fui conhecer melhor estas mulheres (e homens) em várias viagens ao interior do mundo, fui sempre sentindo esse amor que tem na vida. Amor pela mudança, pela diversidade, pela mistura. Essa coisa que o campo ensina: que é preciso plantar de tudo um pouco e que é preciso esperar pra ver crescer e aprender o que é cada um.

Esse misturar do silêncio e do clamor nos acompanhou nas imagens. Ao mesmo tempo em que temos aquele momento tão íntimo, tão cuidadosamente carinhoso do benzimento, temos o clamor popular de quem soube erguer a voz para falar de sua condição, de suas necessidades.

E fomos indo, todas juntas, no meu filme mais feminino, falando destes lados todos, diversos, bonitos todos, somadores do nosso conjunto.

E assim, o filme sobre estas botânicas, sobre estas mães, médicas, empreendedoras da pura fé, sobre estas conhecedoras dos seus e dos saberes que lhes pertencem, tornou-se um filme sobre organização popular. Sobre como estas mulheres do campo juntaram suas vantagens e desvantagens e seguiram rumo ao realizar o sonho de dias melhores.

E como bem sabe quem lida na comunidade, este processo é bonito, mas também é doído, tem idas, tem vindas, tem dias que chove e depois há que vir muito sol pra secar a lama da enchente. Mas quem tem motivos, arruma o mutirão e varre da estrada a sujeira grossa pra passar com a colheita.

Eu tive meus motivos. Elas também tiveram os delas. Tila que foi sindicalista. Ana que é vereadora. Eugenia que sabe quem é não importa o que digam. Dôra que soube abrir mão quando eu não pude. Agda que sabe que aprendeu muito viajando e encontrando. Em todas elas, em tantas mais, pedaços da nossa humanidade comum. Um ímpeto de fazer e ser melhor.

Com estas mulheres incríveis eu cresci um pouco mais. Aprendi e aceitei que eu sei pouco. Deixei que elas me tocassem e sobre mim derramassem o afeto que faz delas: Benzedeiras.

A benção minhas senhoras. Eu volto daqui mais um bocado. Mas volto com o filme pronto.

PS – Assim como elas, eu também não faria nada sozinha. Ah… minha equipe… vocês… eu tenho em vocês um “cuido”. Como é que eu poderia dizer em palavras? Que o tempo permita mostrar em gestos meu mais profundo sentir por cada um que faz comigo esta viagem as profundezas do criar.

Em Rio Bonito com Glória, Donaria, Francisca e nossa equipe. Foto: A câmera.
Em Rio Bonito com Glória, Donaria, Francisca e nossa equipe. Foto: A câmera.
Em São João do Triunfo, na casa de Donatila. Foto: Ângela Oskar.
Em São João do Triunfo, na casa de Donatila. Foto: Ângela Oskar.
Em Rebouças, na casa de Agda, com Lili e nós. Foto: A câmera.
Em Rebouças, na casa de Agda, com Lili e nós. Foto: A câmera.

Crer para ver

Faz tanto tempo que eu vou pra Lapa que nem lembro quando foi que começou o meu profundo gosto por ir a Lapa.

E é um gosto daqueles estranhos. Daqueles que você divide os sentimentos, mesmo eles estando entrelaçados. Uma parte desse sentir é um amor alegre de estar ali numa cidade tão bonita, bem cuidada, daquelas que ainda encontra tempo das crianças correrem pela rua e todo mundo saber de quem é aquele pequeno e dar uma olhada nele, mesmo sem virar a cabeça. Outra parte desse sentir é aquele receio de ver uma cidade pequena escolher ficar no ruim do pequeno, aquele ruim em que todo mundo acha que já sabe como é tudo, e que nada muda, e a vontade do fazer se dilui na inércia de um ante não.

Esse ano floriu o lado do alegre do meu sentir. Tive sorte. Também fiz por ela.

Em um projeto do Iphan (aquele do Patrimônio), acabei por voltar a minha casa na Lapa, a Casa Lacerda, uma casa museu cravada no coração do centro histórico, voltada para um jardim de luz peculiar. Eu gosto tanto da Casa que insisto, talvez indevidamente, em achar que ela é minha. Tomo com ela meus a vontades.

A Casa pra mim é uma espécie de metáfora da Lapa. Ela é linda, mas as pessoas da cidade ainda desfrutam pouco dela. Ela não se revela de primeira: da rua, as cortinas da janela não nos permitem ver a vida interior. E mesmo na entrada, nos primeiros cômodos, não se adivinha a beleza do jardim que nos espera se conquistamos sua intimidade. Eu também acho que a Casa sofre de uma tendência à depressão: se não insistirmos, ela aceita estar vazia com facilidade. Mas no fundo, a Casa quer é estar cheia, florida, em festa. Para mim, suas largas janelas são a prova que ela deseja o frescor do jardim.

E foi com o desejo do perfume do jardim, que eu comecei o meu curso de Educação Patrimonial para os alunos mais lindinhos dessa Lapa. Lá estavam eles: da prefeitura, dos museus, das escolas, do turismo, da música, de perto desse núcleo todo de quem pensa e faz a vida cultural e educacional da cidade. Quase 30 seres que eu olhei nos olhos e falei sobre os meus duplos sentimentos com a Lapa – repassando sempre que este diálogo duro era por conta de acreditar demais no querer bem.

Ficou um silêncio repleto de caras assustadas no começo daquele curso. Tenso… Mas aí veio o amor. Lindo como ele sempre vem, quando a gente acredita. E fez-se o diálogo. Foram surgindo questões, dúvidas, críticas, defesas inflamadas, discordâncias reais, concordâncias construídas na linha do interesse comum. Que exercício essa semana com dias de oito horas de labor comunitário… Suor…

Eu estou convencida que da capacidade de dialogar nascerá sempre um jardim. E um jardim dá trabalho. É preciso estar ali por ele. Não é uma mata natural. É ali plantado e necessita de rega, de poda, de enxada. Depois é que vem o florir.

Do nosso curso-jardim surgiram consensos de que devíamos continuar o exercício a ver no que dava. E uma das nossas vontades de continuar se materializou na seguinte idéia: Detectamos a necessidade de ocupar o espaço público do centro histórico. Isso porque sentimos. Sentimos que o patrimônio é nosso. E entendemos que nosso sentir estava longe da nossa prática cotidiana. E percebemos que tirar o sentir da prática faz mal para a vida. Estraga o dia. Empobrece.

E assim, depois de muitas horas de diálogo, acabamos por achar uma boa idéia: Fazer um pic nic na praça central no final de uma das nossas oficinas programadas no pós-curso. Usar o fim do dia para estarmos juntos, comendo, cantando, contribuindo com o coletivo, desfrutando do frescor do dia.

Afff… Nem te conto…

Conto sim. A história é comprida, mas tem que ser para mostrar como é que é bonito a tomada das rédeas por todos e por cada um.

Do fim do curso até o pic nic foram três semanas com duas oficinas pelo meio. E vai conversa nessa rede. E cada um pensando o que fazer. E segue alimentar uns nos outros a vontade de fazer junto. E vamos lá regando o jardim das possibilidades.

No meio disso tudo, tanta gente pra chegar junto e perguntar por primeiro: “E se chover?” Que nervoso que me dava isso! Porque me vinha a seguinte pergunta: Porque é que estão pensando logo de primeiro nisso? Até eu fiquei achando que talvez não saísse…

Mas que nada. O coletivo, quando bem regado é uma fortaleza… hihihi.

E não é que toda essa conversa-jardim resultou em flores!

Quando foi no dia do pic nic a oficina estava cheia, os estandartes que fizemos foram para a praça, o grupo de teatro Mistura fez suas performances, e o Ganso e a galera da Casa da Música cantaram de improviso que é sempre tão bom, as profs. Fernanda e Maria de Fátima fizeram mágica e trouxeram uma turma de crianças da escola – com as famílias – para apresentar uma roda de capoeira, a Cida criou um evento no facebook e convidou todos os amigos para um chimarrão, a Nilvia e as meninas da Casa (mais a Cida, mais a escola, mais outros que eu não sei) fizeram as tradicionais mandalas para distribuir para os que estivessem, um pessoal jovem ficou sabendo e trouxe seus desenhos para decorar o jardim e mostrar a arte na vida. E ficaram ali curtindo. Tão bonito isso…

Não faltou comida como achavam. Até sobrou e foi partilhada no final. Eu gosto tanto disso de todo mundo trazendo um pouco de comida pra todo mundo comer junto um montão de comida no comunitário. Bonito, né? Acho profundo isso…

E lá estávamos nós. Quase 100 a dada altura. Aqueles 30 do curso multiplicaram.

Eu ouvi de mais de um, algo que eu tenho que renegar. Disseram: “o seu projeto”, ou “você que fez”. Alto lá. Eu bem queria esse crédito. Até seria bom ficar com esse louro. Mas não posso. Atenção geral e especialmente o pessoal do curso que chegou até o fim do texto: Não. Não fui eu que fiz. Não foi um caso de sigam o líder. Fomos todos nós juntos e a vontade individual que cresceu mais forte em vários, não em um, não em todos, mas em vários. Foi uma construção comunitária. Fomos nós, sem nomes, mas em conjunto, que fizemos ser bonito. Não confundam. Tenham isso claro, porque ainda vamos dar mais uns passos em conjunto, ok?

Seguem aí umas poucas fotos para ver o bonito que foi, mas sem mostrar tudo, que é pra criar a necessidade de continuar indo pra ver de fato.

Ah, só pra encerrar: sabe o que? Não choveu não. Ameaçou, mas não choveu.

O pessoal do curso na Casa Lacerda.
O pessoal do curso na Casa Lacerda.
Pós curso, oficina do querido Itaercio Rocha no jardim da Casa.
Pós curso, oficina do querido Itaercio Rocha no jardim da Casa.
Mandalas, tradicionalmente festeiras na Lapa, não podiam faltar no pic nic. Arte efêmera...
Mandalas, tradicionalmente festeiras na Lapa, não podiam faltar no pic nic. Arte efêmera…
Praça povoada no fim de tarde. Simples assim.
Praça povoada no fim de tarde. Simples assim.

Sopros

Soterrada num daqueles momentos em que a imobilidade anda à volta e não se pode mesmo vencê-la, eu resolvi tomar uma medida drástica, e experimentar uma mágica antiga: “Se não pode mudar a sua vida, mude seu cabelo.” (Funciona, mas só com mulheres.)

Algemada, mas não sem vontade própria, lá estava eu atrás do livro, um pouco mais atenta ao som do corte seco da tesoura do que às vozes oscilantes ao redor. Desatentos com os sons, os olhos teimavam em fugir das páginas. E eis que vejo, do outro lado da rua, pela parede vitrine, reluzente entre os cosméticos, lá vem ela!

Era Léa Freire, que passava acompanhada por um talvez músico, com certeza fã de futebol. Lá vinha Léa pela calcada, gesticulando uma conversa, ia falando com o amigo uma mistura de entusiasmo e normalidade. Eu ali, algemada, agora também pela tesoura e o comprido avental preto que faz parte da mágica – sem corpo, só a cabeça para mudar de vida.

Fiquei ali e segui com os olhos pela quadra quase toda até perder de vista a conversa depois da dobrada da esquina. Que coisa! Era como ver o Milles Davis passando pela rua… Quase gritei: Gente, olha, é a Léa Freire! Lá vai mais uma que está escrevendo a história do nosso tempo! (Eu não sei se a Lea teria ali muitos fãs no salão… mas devia ser que sim.)

Incrível, não é? Vi ali passando diante dos meus olhos mais uma artista importante, que está com a sua música contando a história do nosso tempo.

Estes dias vi alguns bons compartilhamentos pelo facebook de uma foto linda. Lá estavam Cartola, Pixinguinha, Elisete, Clementina, e outros bons tantos músicos – também no que parecia ser essa mistura de entusiasmo e normalidade. Quando eu vi aquela foto fiquei pensando: Puxa… será que eles sabiam o importante que eram? (Que são.) Será que a Léa sabe o tanto que ela está fazendo? Eu até acho que não muito. Mas acho de importância urgente a gente saber. Saber que há incríveis artistas – músicos, escritores, cineastas, dramaturgos – vivendo, normalmente andando pela rua numa conversa corriqueira, gesticulando com as mesmas mãos que narram o nosso tempo nas suas artes.

Bonito de ver, né? Deu um alento… deu uma vontade de sorrir como quem sabe quem é aquela que anda ali do outro lado da rua… E mesmo algemada – temporariamente, é claro – eu sorri de canto de boca e depois que a Léa dobrou a esquina, escondi o sorriso atrás do livro, enquanto a tesoura fazia sua mágica.

Afinal, é o que é, e sempre será.

Ano passado lancei ao (m)ar mais um trabalho. O filme Romaria e tradição; fruto de uma aventura muito intensa, profunda, física.

Este projeto foi uma sequência de desafios, do começo ao fim. Os caminhos desse trabalho deixaram marcas em mim e como todos, como cada um, é sempre uma estrada tortuosa, que é boa de caminhar justo pela “in-reteza”.

Quase no fim deste caminho, o filme já pronto, definiu-se o nome: Romaria e tradição.

Eu pensei tanto nesse nome. Pensei tanto até chegar nele. E quando cheguei e foi então hora de contar a todos que o filme estava pronto, que eu precisei repensar e perguntar: o que é a tradição?

E foi nessa pensação que surgiu um pouco na brincadeira (que é sempre caminho bom) a idéia de convidar a todos para a festa chamando os amigos para fazer o convite, a decoração e dizer o que é a tradição.

Explico pra quem não viu ou não soube: o filme retrata a história da família Moraes, em uma pequena localidade rural, Góes Artigas, organizando uma grande festa, uma Romaria tradicional para São Gonçalo e São João.

E a imagem de capa do filme é uma bandeirinha que é usada na festa. Especial, feita com apreço e técnica, coração e arte, pra enfeitar o dia e receber os convidados.

Aí resolvi convidar os meus, pra ver o filme pela primeira vez e fazer deste encontro uma festa, decorando a Cinemateca de Curitiba à tradicional com centenas de bandeirinhas. E botei os amigos pra cooperar no mutirão das bandeirinhas.

E logo pro primeiro (o músico Oswaldo Rios), perguntei no meio da pose da foto: o que era tradição pra você? Oswaldo que é de sorriso largo fez a foto com a bandeirinha e resolveu pensar. E mandou depois texto de poesia fina, bem penteado e pronto pra ser refrão de música. Achei tão bonito que segui perguntando.

E isso foi por 30 dias, parecia promessa. Todo dia tinha que ter lá no nosso facebook uma foto, mais uns dizeres e claro, mais umas bandeirinhas, que afinal a festa tava cada vez mais perto.

E aí a tradição fez sua mágica. Ela sempre faz e me pega de jeito. Foi tão bonito. Dia a dia foi entrando na agenda um encontro com a vida real. E do contador ao produtor musical, do músico ao motorista, dos amigos velhos aos amigos novos que vão surgindo no correr normal da vida, foi todo mundo achando graça e dizendo o que era a tal da tradição.

E o maluco é que quase todo mundo tinha a mesma marcha: uma surpresa com a pergunta, uma dúvida do que dizer e uma resposta bonita, muito clara, muito profunda, muita coerente.

Eu ia ouvindo e pensando: “Nossa, faz sentido pra todo mundo! Toda gente sabe o que dizer e diz lá do fundo… É de todos nós, a gente está com ela viva no peito!”

E foi uma boniteza sem fim. Foi me dando um prazer de fazer isso. Foi brotando uma alegria dia a dia de colocar no cotidiano essa e outras questões. Cada palavra inspiradora, cada suspiro risonho tão contente…

E aí, vieram surpresas, gente que ia mandando bandeirinhas, que ia dizendo o que achava também, que escrevia pra dizer coisas bonitas pra somar. O mutirão é forte. A festa ganha todas. E sim, sem dúvida alguma: A tradição é nossa!

Foi assim que eu cheguei no dia 13 de dezembro, estréia do filme. Com a certeza que a tradição é nossa, que a gente faz melhor junto, que a festa é nosso meio de ser mais trad, de ser mais junto, de estar mais vivo, atento e forte. E claro, a festa foi muito bonita.

O ano acabou. Outro começou e a tradição é nossa, a vida é nossa, a alegria é nossa e nossa é a responsabilidade de continuar fazendo… Cansa sim. Mas dá tanto em retorno.

É só saber olhar pra dentro, olhar pra fora e ver como quem quer somar. Resumindo: vem aí mais um ano fazendo a vida com tradição!

E apesar da conversa estar comprida, foi tão bom ouvir, que eu acho melhor colocar aqui embaixo o que o pessoal falou. Aqui vai, logo depois da foto!

No dia da festa, bandeirinhas nas mãos de todos. Foto: Susan Silva. 13/12/14 Romaria e Tradição, na Cinemateca de Curitiba.
No dia da festa, bandeirinhas nas mãos de todos. Foto: Susan Silva. 13/12/14 Romaria e Tradição, na Cinemateca de Curitiba.

Tradição é:

“Essa linha de conhecimento que a gente vem puxando no tempo pra passar adiante.” Oswaldo Rios, músico.

“O suporte para as nossas crenças!” Vivian Agnolo Madalozzo e Tiago Madolozzo, educadores musicais na Alecrim Dourado Formação Musical.

“O reconhecimento da expertise.” Luciana Falcon e Cristine Conde, costureiras e criadoras na Benvindo Valente.

“Memória”, Beatrice Takashina, empresária.

“É a coisa mais libertária que existe.” Lauro Borges, artista visual.

“As nossas raízes em movimento.” Terry Costa, Diretor Artístico da Mirateca Arts.

“A comunidade conhecer a sua história e andar junto com ela.” João Mário Istrisoski, Chefe de Núcleo CIC.

“A história revisitada.” LM Stein, Produtor.

“A identidade que faz o cidadão se pertencer.” Aorélio Domingues, mestre fandangueiro.

“Valorizar as nossas raízes.” Humberto Gomes, diretor teatral.

“Reconhecimento e valorização da história.” George Sada, diretor teatral.

“Manter viva a cultura que foi esculpida pelos nossos antepassados.” Guido Poffo, contador.

“A alma de um povo.” Geraldo Pioli, cineasta.

“Aquilo que é passado de geração em geração.” Claudia Arioli, Cinemateca de Curitiba.

“Essência.” Iria Braga, cantora e apresentadora do É Cultura.

“Alma Lusa!” – Grupo Folclórico Alma Lusa.

“A alegria de saber de onde você veio e a quem você pertence.” Guilherme Romanelli, músico

“Emoção na estrada.” Nelson Oliveira, motorista.

“Aquilo que está na nossa raiz, no nosso imaginário e que é maturado através dos tempos.” Renata Rosa, música.

“Tudo aquilo que sempre existiu mesmo para quem nunca viveu.” Adriana Melges, produtora.

“Aquilo que mantém viva a alma de um povo.” Fernando Degui, músico.

Me, Myself an Eye

Já é tão tarde. Charles Mingus e eu continuamos nossas longas conversas de madrugada. As vezes tenho a ilusão que ouvimos as mesmas notas. Charles parece bem mais sereno do que eu e no profundo pôster verde da parede ele respira lentamente. Eu não. Mas Charles me compreende. Ele sabe que estar dos dois lados é assim, atônito e incompleto.

Eu já atravessei o vasto oceano que alonga as nossas jornadas. Mas ainda não estou aqui. Também não estou lá. Estou no meio do caminho, entre as notas que ouvimos, Charles e eu, nestes 45 dias de encontros, abraços, apertos e olhares que fizeram desta viagem uma sinfonia de sentimentos controversos.

Nós andamos falando, Charles e eu, sobre estes dias de reencontro com Portugal e Galiza. Ainda vamos falar muito sobre isso. E com certeza, sabemos que é preciso decantar, para ver de fato.

Foi bonito voltar depois de uma longa ausência. Ver tantos que são de fato, meus, foi essencial para repensar os próximos passos, a partir do que já houve. Os que faltaram ver; ficam como a promessa de que não acaba aqui esta travessia, de que é preciso voltar e rever e refazer.

Foram dias intensos, sem descanso, sem espaço para decantar. Mas foi possível vivê-los bem porque passaram ao lado de gente amada, que fez de tudo para trazer o acalento quando os músculos sozinhos não davam conta do recado.

Charles e eu pensamos muito sobre o cansaço físico nestes dias e ocorreu-me o quanto o corpo pode sentir as emoções e ler na sua própria forma, a medida do coração.

Rever Portugal e Galiza, meus amores, nestes dias em que há tanta dúvida, em que se respira apertado e os corpos buscam, sem paragem segura, um espaço para o repouso, foi um desafio. Há tanto tempo sem o encontro, quando chegou a hora veio em forma de tempestade, essa colisão bonita, de sorrisos, lágrimas, abraços, histórias e acontecimentos que eu perdi e que generosamente queriam partilhar os que sentiram a minha ausência-presente. Bonito sentir que eu nunca fui embora de fato e que na re-chegada já estava tudo ali, pronto pra conversa continuar. Intensas estas conversas…

Resumindo, ficou-me no sentido que a despeito de toda dificuldade, de toda falta de repouso, de toda saudade e de todo amor não realizado, há a necessidade de prosseguir, em contato. Estas terras, também minhas, guardam o encontro, o amar, o desejo de ver de perto.

Eu ainda não sei, não parei de fato para saber. Mas intuo que eu fui desta vez para realizar uma previsão de Benjamim, que como Charles e eu, tem sentido no corpo a medida do coração. E foi com esta força do concreto, que ele profetizou: “O presente, sem passado, é obscuro.”

O meu passado nestas terras foi intenso, o presente dilacerou o corpo e o coração. Aceitei sem remorsos, porque senti que a despeito de toda profundidade dessa escavação, semeamos nessa viagem um futuro luminoso nestes meus três lares.

Boa noite Portugal. Bom dia Brasil. Cheguei. É hora!

Sermos uns para os outros

Há dias em que a vida é feliz. E ponto. Ontem foi.

Hoje tudo dói. E é difícil distinguir se dói mais o corpo, cansado, fisicamente exaurido ou se a dor vem da emoção, de tudo que por nós passa e perpassa outras musculaturas.

Hoje, mesmo com esta dor por todos os lados, há que reconhecer que ela é fruto de dois dias de felicidade dilatada.

Estamos de volta, Miguel Barriga e eu, de dois dias duros e cruéis e profundos e desafiadores e contraditoriamente felizes.

Fomos para Montedor. E lá fomos para estar com ele – um pouco gente, um pouco ícone – ele, que está vivo, que me esperou e me aceitou.

Benjamim Pereira, do alto de seus 85 anos e com extremas limitações físicas disse sim. Disse que podíamos ir. E fomos.

Benjamim concordou que eu fosse a Montedor gravar um poema com ele e sobre ele. Há algumas semanas lá fomos lhe pedir, Domingos Morais e eu, que considerasse a hipótese. Três semanas depois, com Miguel, chegamos ao seu castelo e ele nos recebeu ofegante.

Houve ali alguma dúvida, eu sei. E eu entendo. Fazer um filme é como fazer um livro, é como fazer um filho. É um ato de intimidade profunda. Há de haver consenso e amor.

Benjamim já não sabia bem se era o caso de se revelar. Tão lúcido e efervescente seu pensamento e tão frágil, traído pelo corpo físico. Eu não pude lhe deixar. Só pude olhar nos seus olhos e dizer: «Vamos fazer o seguinte; eu confio em você e você confia em mim.» E sem lhe dar outra hipótese, comecei.

Nestes dois dias, eu o invadi. Com amor, com respeito, com carinho, mas o invadi. Foi doloroso para mim lhe pedir tanto, tão intensamente, tão fisicamente.

Por alguma razão, ele cedeu. Talvez tenha percebido, o que fazíamos ali, juntos. E depois de alguma dúvida, aceitou profundamente e decidiu dizer o profundo.

Contou-me sobre as suas próprias dúvidas, e nelas, reconheceu as minhas. Falou-me tanto, já sem forças, quis continuar – uma delicada forma de dizer que afinal estava grato por termos todos continuado, juntos.

Nestes dois dias, de uma felicidade salgada, chorei mais do que devia. Não pude conter. Nós dois sabíamos a dada altura que este tinha o sabor do último dos nossos encontros, sempre tão intensos. Como de costume, ele disse-me coisas que vão nortear muitos dos meu próximos passos. Foi generoso ao comentar os filmes novos que havia lhe deixado. Foi pontual ao apontar o que se passa no mundo e como olhar para frente de tudo isso. Foi honesto e coerente ao partilhar as experiências que teve e poderoso ao indicar o porque me dizia o que dizia e marcou com energia o que me queria dizer.

Abracei-o de todas as formas que pude. Não queria ir na hora que sentimos que era o fim. Pelo menos daqueles dois dias, era o fim. Decidimos combinar que eu voltaria logo e que ele ficava de me esperar. Temos feito isso há alguns anos. Tem resultado.

De certa forma, em Montedor, estamos todos a salvo. Paira ali um tempo de viver o tempo.

Na saída, fui agradecer a Linda, que o tem cuidado tanto. E ela disse com um ar tão natural: «Ora, mas é claro, temos que ser uns para os outros. Senão, como seria?»

Olhei para dentro e vi Miguel Barriga, que pegou no seu tempo, talentos e máquinas, e foi por nós. Sem palavras Miguel para dizer o quanto foi isso… O tempo te devolverá. Oxalá venha de volta o tanto que isso foi. Olhei para dentro e vi Domingos Morais que tem sido por tanto tempo, por tantos de nós… Nem todas as palavras poderiam dizer o quanto isso vale. Olhei de novo e vi o Pedro Morais que eu nem soube, emprestou parte das máquinas. E só pensei: que bom ter famílias por nós neste vasto mundo.

Olhei mais uma vez e vi a Linda, passando com o chá para o Benjamim, enquanto desmontávamos as máquinas pelo pátio do castelo.

Já era noite alta. E era preciso regressar. O sul estava a nossa espera. Pela luzes frágeis entrevi mais uma vez o senhor do castelo e seus olhos brilhantes. Sorriu contente com a minha impertinente visita.

Ficou acordado que sempre teremos Montedor, onde a vida nos ensina a importância de sermos uns para os outros.

Uma janela para o mundo. Montedor, 2014.
Uma janela para o mundo. Montedor, 2014.