Não se esqueça

Já era fim de noite, ou melhor dizendo, o dia já tinha começado há algumas horas. E lá estava eu nas minhas – dizem por aí – intermináveis despedidas. Era de novo o dia da festa de José Moraes e de sua família.

Seu José e sua Romaria de São Gonçalo entraram na minha vida há alguns anos. E nestes anos vivemos as mais diferentes versões deste dia. No primeiro deles não nos conhecíamos o suficiente e eu lá estava como espectadora, “chegando agora”, todo mundo na espreita. No segundo já éramos conhecidos e já tínhamos a conversa do filme bem estabelecida. Houve um ano que não teve festa e ninguém lembrou de nos avisar. Chegamos lá e passamos o dia com a família planejando o futuro filme. Os anos passaram. O plano virou realidade.

Ano passado lá chegamos e Seu José não ia fazer a festa por conta da enchente. Saímos de lá com a festa e o filme feitos. Saí de lá com uma amizade de vida toda. Daquelas de quem viveu junto algo que não se esquece.

Neste ano, fomos à festa como quem vai de visita. Apesar da responsabilidade de passar o filme na comunidade, eu fui sem pensamentos e planos, fui só feliz.

Em geral, exibições alternativas me dão calafrios. É sempre como é possível fazer. Mas já faz um tempo que eu entendi que é sempre melhor passar do que não passar. Enquanto não chega a sala de cinema no interior do Brasil, chega o filme: possível, viável, respeitando a realidade e querendo fazer parte dela.

Foi tão bonito. Na sala da Romaria, montamos uma tela e ajeitamos o projetor entre os bancos. Na sala, por volta de umas cento e cinqüenta pessoas. Seu José e eu ficamos sem banco, assistimos meio ajoelhados no chão – quase pagando promessa. (risos meus)

Naqueles 22 minutos virei a cabeça muitas vezes. Seu José sorria contente, acho eu relembrando aqueles dias. Dona Cecília, matriarca da família, bem acomodada numa cadeira de honra na primeira fila, abanava a cabeça em concordância com suas palavras ali registradas.

Muitos rostos que eu não conhecia estavam tão atentos, tão silenciosos, umas caras tão bonitas ali naquele hiato de tempo, naquele estar na festa e repensar a festa. Rever seus sentidos e valores por meus olhos alheios e arrisco – próximos também.

Naquela noite uma alegria especial. Ano passado, enquanto rodávamos o filme da Romaria, eu ligava com freqüência pra outra comunidade, a das Benzedeiras de Rebouças. Dona Agda, nossa amiga e nossa personagem do então próximo filme, vivia uma situação difícil. O neto de 3 anos sofrera um grave acidente e podia morrer. Ela pediu que na festa fizessem uma intenção por ele. No filme, lá estão no altar as velinhas acendidas e pedidas por Dona Cecília. Este ano, sentada logo atrás de mim na projeção, Dona Agda foi à festa contar sua história, dar a boa nova da cura com o neto no colo, levar seu abraço de gratidão pelo apoio e talvez – isso sonho eu – pensar em quando é que veria o seu filme pronto. Já rodamos com elas e por lá já perguntam quando é que eu volto com o filme, contou-me ela.

Ter os dois filmes juntos, ali naquele hiato de tempo, um que foi e um que vai sendo, naquela sala, assistindo o passado, vivendo nele o futuro, foi algo que não sei dizer, mas quero sentir mais.

No fim de tudo, dois comentários geniais: Érica de 4 anos queria saber como conseguimos por a televisão tão grande na parede. Dona Cecília de 83 suspirou com pena de não termos podido colocar no filme as 8 horas da festa inteirinhas, todas lá. Cada um com os seus sonhos… Acho bem.

Nas despedidas, que eu digo logo não são nada intermináveis. São profundas, isso sim. E tem de ser. Com os olhos mesmo, nos vemos uma vez por ano. E agora, filme feito, nem isso se não calhar. Nas tais despedidas muitos vem me dizer: “Não se esqueça da gente.” Dizem isso com a mão tão apertada, tão agarrada. Como é que eles podem pensar que eu poderia esquecer? Fazemos parte. Vivemos algo de grande e fundo todos juntos. Eu nunca esqueço, mesmo quando não vejo com os olhos. Eu nunca digo isso. Parto do princípio que ninguém vai me esquecer. E mesmo quando alguém me esquece e preciso me apresentar de novo, eu sinto ali aquele sentir que não se diz em palavras…

Quase final de despedidas eu e Sr José no salão, mãos dadas em aperto, contentes, eu disse algo como “missão cumprida” e emendei num: “eu gosto do senhor, seu José”. Ele respondeu antes com o sorriso e emendou com um profundo: “Se gostemo!”.

Seu José, eu e Dona Agda, na Romaria de 2015. Felizes com a vida, com a festa e com os filmes.
Seu José, eu e Dona Agda, na Romaria de 2015. Felizes com a vida, com a festa e com os filmes.
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