A minha roseira encarnada…

 Como não há outra igual

Tenho lá no meu quintal

Aquela linda roseira

Já vai se fazendo mais um filme.

É noite aqui em casa. E apesar de ser já tarde, as crianças ainda brincam. Mas andam trânqüilas com a música ao fundo desenhando entretidas, e consigo escrever.

Normalmente prefiro fazê-lo na profunda solidão da noite, que me confronta com o que há no mais lá dentro de mim. Que me pergunta no silêncio: que andas tu a fazer dos teus dias?

Hoje, neste jardim de sons e risinhos, entrevejo outros jardins. Aqueles que deixei para trás há só dois ou três dias. Suas donas lá estarão, também na noite, entretidas.

Faço esta concessão de escrever no meio dos sons e passinhos barulhentos porque este filme foi mesmo isso: um jardim selvagem. Que nos domina e nos torna parte da paisagem.

Desde sempre, desde os primeiros caminhos para o filme sobre as Benzedeiras de Rebouças e São João do Triunfo, foi assim essa mistura dos meus necessários silêncios com as risadas e o coro animado, sempre em volta.

Não podia ser de outra forma para um filme que mistura exatamente isso: o silêncio e o clamor.

Quando fui conhecer melhor estas mulheres (e homens) em várias viagens ao interior do mundo, fui sempre sentindo esse amor que tem na vida. Amor pela mudança, pela diversidade, pela mistura. Essa coisa que o campo ensina: que é preciso plantar de tudo um pouco e que é preciso esperar pra ver crescer e aprender o que é cada um.

Esse misturar do silêncio e do clamor nos acompanhou nas imagens. Ao mesmo tempo em que temos aquele momento tão íntimo, tão cuidadosamente carinhoso do benzimento, temos o clamor popular de quem soube erguer a voz para falar de sua condição, de suas necessidades.

E fomos indo, todas juntas, no meu filme mais feminino, falando destes lados todos, diversos, bonitos todos, somadores do nosso conjunto.

E assim, o filme sobre estas botânicas, sobre estas mães, médicas, empreendedoras da pura fé, sobre estas conhecedoras dos seus e dos saberes que lhes pertencem, tornou-se um filme sobre organização popular. Sobre como estas mulheres do campo juntaram suas vantagens e desvantagens e seguiram rumo ao realizar o sonho de dias melhores.

E como bem sabe quem lida na comunidade, este processo é bonito, mas também é doído, tem idas, tem vindas, tem dias que chove e depois há que vir muito sol pra secar a lama da enchente. Mas quem tem motivos, arruma o mutirão e varre da estrada a sujeira grossa pra passar com a colheita.

Eu tive meus motivos. Elas também tiveram os delas. Tila que foi sindicalista. Ana que é vereadora. Eugenia que sabe quem é não importa o que digam. Dôra que soube abrir mão quando eu não pude. Agda que sabe que aprendeu muito viajando e encontrando. Em todas elas, em tantas mais, pedaços da nossa humanidade comum. Um ímpeto de fazer e ser melhor.

Com estas mulheres incríveis eu cresci um pouco mais. Aprendi e aceitei que eu sei pouco. Deixei que elas me tocassem e sobre mim derramassem o afeto que faz delas: Benzedeiras.

A benção minhas senhoras. Eu volto daqui mais um bocado. Mas volto com o filme pronto.

PS – Assim como elas, eu também não faria nada sozinha. Ah… minha equipe… vocês… eu tenho em vocês um “cuido”. Como é que eu poderia dizer em palavras? Que o tempo permita mostrar em gestos meu mais profundo sentir por cada um que faz comigo esta viagem as profundezas do criar.

Em Rio Bonito com Glória, Donaria, Francisca e nossa equipe. Foto: A câmera.
Em Rio Bonito com Glória, Donaria, Francisca e nossa equipe. Foto: A câmera.
Em São João do Triunfo, na casa de Donatila. Foto: Ângela Oskar.
Em São João do Triunfo, na casa de Donatila. Foto: Ângela Oskar.
Em Rebouças, na casa de Agda, com Lili e nós. Foto: A câmera.
Em Rebouças, na casa de Agda, com Lili e nós. Foto: A câmera.
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4 comentários em “A minha roseira encarnada…

  1. O que dizer de suas linhas querida Lia? Pura poesia… Sempre completando nosso coração com todas essas alegrias e conhecimentos que compartilha conosco, feliz, feliz em fazer parte dessa história! Beijos. Angela Oskar

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