Crer para ver

Faz tanto tempo que eu vou pra Lapa que nem lembro quando foi que começou o meu profundo gosto por ir a Lapa.

E é um gosto daqueles estranhos. Daqueles que você divide os sentimentos, mesmo eles estando entrelaçados. Uma parte desse sentir é um amor alegre de estar ali numa cidade tão bonita, bem cuidada, daquelas que ainda encontra tempo das crianças correrem pela rua e todo mundo saber de quem é aquele pequeno e dar uma olhada nele, mesmo sem virar a cabeça. Outra parte desse sentir é aquele receio de ver uma cidade pequena escolher ficar no ruim do pequeno, aquele ruim em que todo mundo acha que já sabe como é tudo, e que nada muda, e a vontade do fazer se dilui na inércia de um ante não.

Esse ano floriu o lado do alegre do meu sentir. Tive sorte. Também fiz por ela.

Em um projeto do Iphan (aquele do Patrimônio), acabei por voltar a minha casa na Lapa, a Casa Lacerda, uma casa museu cravada no coração do centro histórico, voltada para um jardim de luz peculiar. Eu gosto tanto da Casa que insisto, talvez indevidamente, em achar que ela é minha. Tomo com ela meus a vontades.

A Casa pra mim é uma espécie de metáfora da Lapa. Ela é linda, mas as pessoas da cidade ainda desfrutam pouco dela. Ela não se revela de primeira: da rua, as cortinas da janela não nos permitem ver a vida interior. E mesmo na entrada, nos primeiros cômodos, não se adivinha a beleza do jardim que nos espera se conquistamos sua intimidade. Eu também acho que a Casa sofre de uma tendência à depressão: se não insistirmos, ela aceita estar vazia com facilidade. Mas no fundo, a Casa quer é estar cheia, florida, em festa. Para mim, suas largas janelas são a prova que ela deseja o frescor do jardim.

E foi com o desejo do perfume do jardim, que eu comecei o meu curso de Educação Patrimonial para os alunos mais lindinhos dessa Lapa. Lá estavam eles: da prefeitura, dos museus, das escolas, do turismo, da música, de perto desse núcleo todo de quem pensa e faz a vida cultural e educacional da cidade. Quase 30 seres que eu olhei nos olhos e falei sobre os meus duplos sentimentos com a Lapa – repassando sempre que este diálogo duro era por conta de acreditar demais no querer bem.

Ficou um silêncio repleto de caras assustadas no começo daquele curso. Tenso… Mas aí veio o amor. Lindo como ele sempre vem, quando a gente acredita. E fez-se o diálogo. Foram surgindo questões, dúvidas, críticas, defesas inflamadas, discordâncias reais, concordâncias construídas na linha do interesse comum. Que exercício essa semana com dias de oito horas de labor comunitário… Suor…

Eu estou convencida que da capacidade de dialogar nascerá sempre um jardim. E um jardim dá trabalho. É preciso estar ali por ele. Não é uma mata natural. É ali plantado e necessita de rega, de poda, de enxada. Depois é que vem o florir.

Do nosso curso-jardim surgiram consensos de que devíamos continuar o exercício a ver no que dava. E uma das nossas vontades de continuar se materializou na seguinte idéia: Detectamos a necessidade de ocupar o espaço público do centro histórico. Isso porque sentimos. Sentimos que o patrimônio é nosso. E entendemos que nosso sentir estava longe da nossa prática cotidiana. E percebemos que tirar o sentir da prática faz mal para a vida. Estraga o dia. Empobrece.

E assim, depois de muitas horas de diálogo, acabamos por achar uma boa idéia: Fazer um pic nic na praça central no final de uma das nossas oficinas programadas no pós-curso. Usar o fim do dia para estarmos juntos, comendo, cantando, contribuindo com o coletivo, desfrutando do frescor do dia.

Afff… Nem te conto…

Conto sim. A história é comprida, mas tem que ser para mostrar como é que é bonito a tomada das rédeas por todos e por cada um.

Do fim do curso até o pic nic foram três semanas com duas oficinas pelo meio. E vai conversa nessa rede. E cada um pensando o que fazer. E segue alimentar uns nos outros a vontade de fazer junto. E vamos lá regando o jardim das possibilidades.

No meio disso tudo, tanta gente pra chegar junto e perguntar por primeiro: “E se chover?” Que nervoso que me dava isso! Porque me vinha a seguinte pergunta: Porque é que estão pensando logo de primeiro nisso? Até eu fiquei achando que talvez não saísse…

Mas que nada. O coletivo, quando bem regado é uma fortaleza… hihihi.

E não é que toda essa conversa-jardim resultou em flores!

Quando foi no dia do pic nic a oficina estava cheia, os estandartes que fizemos foram para a praça, o grupo de teatro Mistura fez suas performances, e o Ganso e a galera da Casa da Música cantaram de improviso que é sempre tão bom, as profs. Fernanda e Maria de Fátima fizeram mágica e trouxeram uma turma de crianças da escola – com as famílias – para apresentar uma roda de capoeira, a Cida criou um evento no facebook e convidou todos os amigos para um chimarrão, a Nilvia e as meninas da Casa (mais a Cida, mais a escola, mais outros que eu não sei) fizeram as tradicionais mandalas para distribuir para os que estivessem, um pessoal jovem ficou sabendo e trouxe seus desenhos para decorar o jardim e mostrar a arte na vida. E ficaram ali curtindo. Tão bonito isso…

Não faltou comida como achavam. Até sobrou e foi partilhada no final. Eu gosto tanto disso de todo mundo trazendo um pouco de comida pra todo mundo comer junto um montão de comida no comunitário. Bonito, né? Acho profundo isso…

E lá estávamos nós. Quase 100 a dada altura. Aqueles 30 do curso multiplicaram.

Eu ouvi de mais de um, algo que eu tenho que renegar. Disseram: “o seu projeto”, ou “você que fez”. Alto lá. Eu bem queria esse crédito. Até seria bom ficar com esse louro. Mas não posso. Atenção geral e especialmente o pessoal do curso que chegou até o fim do texto: Não. Não fui eu que fiz. Não foi um caso de sigam o líder. Fomos todos nós juntos e a vontade individual que cresceu mais forte em vários, não em um, não em todos, mas em vários. Foi uma construção comunitária. Fomos nós, sem nomes, mas em conjunto, que fizemos ser bonito. Não confundam. Tenham isso claro, porque ainda vamos dar mais uns passos em conjunto, ok?

Seguem aí umas poucas fotos para ver o bonito que foi, mas sem mostrar tudo, que é pra criar a necessidade de continuar indo pra ver de fato.

Ah, só pra encerrar: sabe o que? Não choveu não. Ameaçou, mas não choveu.

O pessoal do curso na Casa Lacerda.
O pessoal do curso na Casa Lacerda.
Pós curso, oficina do querido Itaercio Rocha no jardim da Casa.
Pós curso, oficina do querido Itaercio Rocha no jardim da Casa.
Mandalas, tradicionalmente festeiras na Lapa, não podiam faltar no pic nic. Arte efêmera...
Mandalas, tradicionalmente festeiras na Lapa, não podiam faltar no pic nic. Arte efêmera…
Praça povoada no fim de tarde. Simples assim.
Praça povoada no fim de tarde. Simples assim.
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2 comentários em “Crer para ver

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