Sopros

Soterrada num daqueles momentos em que a imobilidade anda à volta e não se pode mesmo vencê-la, eu resolvi tomar uma medida drástica, e experimentar uma mágica antiga: “Se não pode mudar a sua vida, mude seu cabelo.” (Funciona, mas só com mulheres.)

Algemada, mas não sem vontade própria, lá estava eu atrás do livro, um pouco mais atenta ao som do corte seco da tesoura do que às vozes oscilantes ao redor. Desatentos com os sons, os olhos teimavam em fugir das páginas. E eis que vejo, do outro lado da rua, pela parede vitrine, reluzente entre os cosméticos, lá vem ela!

Era Léa Freire, que passava acompanhada por um talvez músico, com certeza fã de futebol. Lá vinha Léa pela calcada, gesticulando uma conversa, ia falando com o amigo uma mistura de entusiasmo e normalidade. Eu ali, algemada, agora também pela tesoura e o comprido avental preto que faz parte da mágica – sem corpo, só a cabeça para mudar de vida.

Fiquei ali e segui com os olhos pela quadra quase toda até perder de vista a conversa depois da dobrada da esquina. Que coisa! Era como ver o Milles Davis passando pela rua… Quase gritei: Gente, olha, é a Léa Freire! Lá vai mais uma que está escrevendo a história do nosso tempo! (Eu não sei se a Lea teria ali muitos fãs no salão… mas devia ser que sim.)

Incrível, não é? Vi ali passando diante dos meus olhos mais uma artista importante, que está com a sua música contando a história do nosso tempo.

Estes dias vi alguns bons compartilhamentos pelo facebook de uma foto linda. Lá estavam Cartola, Pixinguinha, Elisete, Clementina, e outros bons tantos músicos – também no que parecia ser essa mistura de entusiasmo e normalidade. Quando eu vi aquela foto fiquei pensando: Puxa… será que eles sabiam o importante que eram? (Que são.) Será que a Léa sabe o tanto que ela está fazendo? Eu até acho que não muito. Mas acho de importância urgente a gente saber. Saber que há incríveis artistas – músicos, escritores, cineastas, dramaturgos – vivendo, normalmente andando pela rua numa conversa corriqueira, gesticulando com as mesmas mãos que narram o nosso tempo nas suas artes.

Bonito de ver, né? Deu um alento… deu uma vontade de sorrir como quem sabe quem é aquela que anda ali do outro lado da rua… E mesmo algemada – temporariamente, é claro – eu sorri de canto de boca e depois que a Léa dobrou a esquina, escondi o sorriso atrás do livro, enquanto a tesoura fazia sua mágica.

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Afinal, é o que é, e sempre será.

Ano passado lancei ao (m)ar mais um trabalho. O filme Romaria e tradição; fruto de uma aventura muito intensa, profunda, física.

Este projeto foi uma sequência de desafios, do começo ao fim. Os caminhos desse trabalho deixaram marcas em mim e como todos, como cada um, é sempre uma estrada tortuosa, que é boa de caminhar justo pela “in-reteza”.

Quase no fim deste caminho, o filme já pronto, definiu-se o nome: Romaria e tradição.

Eu pensei tanto nesse nome. Pensei tanto até chegar nele. E quando cheguei e foi então hora de contar a todos que o filme estava pronto, que eu precisei repensar e perguntar: o que é a tradição?

E foi nessa pensação que surgiu um pouco na brincadeira (que é sempre caminho bom) a idéia de convidar a todos para a festa chamando os amigos para fazer o convite, a decoração e dizer o que é a tradição.

Explico pra quem não viu ou não soube: o filme retrata a história da família Moraes, em uma pequena localidade rural, Góes Artigas, organizando uma grande festa, uma Romaria tradicional para São Gonçalo e São João.

E a imagem de capa do filme é uma bandeirinha que é usada na festa. Especial, feita com apreço e técnica, coração e arte, pra enfeitar o dia e receber os convidados.

Aí resolvi convidar os meus, pra ver o filme pela primeira vez e fazer deste encontro uma festa, decorando a Cinemateca de Curitiba à tradicional com centenas de bandeirinhas. E botei os amigos pra cooperar no mutirão das bandeirinhas.

E logo pro primeiro (o músico Oswaldo Rios), perguntei no meio da pose da foto: o que era tradição pra você? Oswaldo que é de sorriso largo fez a foto com a bandeirinha e resolveu pensar. E mandou depois texto de poesia fina, bem penteado e pronto pra ser refrão de música. Achei tão bonito que segui perguntando.

E isso foi por 30 dias, parecia promessa. Todo dia tinha que ter lá no nosso facebook uma foto, mais uns dizeres e claro, mais umas bandeirinhas, que afinal a festa tava cada vez mais perto.

E aí a tradição fez sua mágica. Ela sempre faz e me pega de jeito. Foi tão bonito. Dia a dia foi entrando na agenda um encontro com a vida real. E do contador ao produtor musical, do músico ao motorista, dos amigos velhos aos amigos novos que vão surgindo no correr normal da vida, foi todo mundo achando graça e dizendo o que era a tal da tradição.

E o maluco é que quase todo mundo tinha a mesma marcha: uma surpresa com a pergunta, uma dúvida do que dizer e uma resposta bonita, muito clara, muito profunda, muita coerente.

Eu ia ouvindo e pensando: “Nossa, faz sentido pra todo mundo! Toda gente sabe o que dizer e diz lá do fundo… É de todos nós, a gente está com ela viva no peito!”

E foi uma boniteza sem fim. Foi me dando um prazer de fazer isso. Foi brotando uma alegria dia a dia de colocar no cotidiano essa e outras questões. Cada palavra inspiradora, cada suspiro risonho tão contente…

E aí, vieram surpresas, gente que ia mandando bandeirinhas, que ia dizendo o que achava também, que escrevia pra dizer coisas bonitas pra somar. O mutirão é forte. A festa ganha todas. E sim, sem dúvida alguma: A tradição é nossa!

Foi assim que eu cheguei no dia 13 de dezembro, estréia do filme. Com a certeza que a tradição é nossa, que a gente faz melhor junto, que a festa é nosso meio de ser mais trad, de ser mais junto, de estar mais vivo, atento e forte. E claro, a festa foi muito bonita.

O ano acabou. Outro começou e a tradição é nossa, a vida é nossa, a alegria é nossa e nossa é a responsabilidade de continuar fazendo… Cansa sim. Mas dá tanto em retorno.

É só saber olhar pra dentro, olhar pra fora e ver como quem quer somar. Resumindo: vem aí mais um ano fazendo a vida com tradição!

E apesar da conversa estar comprida, foi tão bom ouvir, que eu acho melhor colocar aqui embaixo o que o pessoal falou. Aqui vai, logo depois da foto!

No dia da festa, bandeirinhas nas mãos de todos. Foto: Susan Silva. 13/12/14 Romaria e Tradição, na Cinemateca de Curitiba.
No dia da festa, bandeirinhas nas mãos de todos. Foto: Susan Silva. 13/12/14 Romaria e Tradição, na Cinemateca de Curitiba.

Tradição é:

“Essa linha de conhecimento que a gente vem puxando no tempo pra passar adiante.” Oswaldo Rios, músico.

“O suporte para as nossas crenças!” Vivian Agnolo Madalozzo e Tiago Madolozzo, educadores musicais na Alecrim Dourado Formação Musical.

“O reconhecimento da expertise.” Luciana Falcon e Cristine Conde, costureiras e criadoras na Benvindo Valente.

“Memória”, Beatrice Takashina, empresária.

“É a coisa mais libertária que existe.” Lauro Borges, artista visual.

“As nossas raízes em movimento.” Terry Costa, Diretor Artístico da Mirateca Arts.

“A comunidade conhecer a sua história e andar junto com ela.” João Mário Istrisoski, Chefe de Núcleo CIC.

“A história revisitada.” LM Stein, Produtor.

“A identidade que faz o cidadão se pertencer.” Aorélio Domingues, mestre fandangueiro.

“Valorizar as nossas raízes.” Humberto Gomes, diretor teatral.

“Reconhecimento e valorização da história.” George Sada, diretor teatral.

“Manter viva a cultura que foi esculpida pelos nossos antepassados.” Guido Poffo, contador.

“A alma de um povo.” Geraldo Pioli, cineasta.

“Aquilo que é passado de geração em geração.” Claudia Arioli, Cinemateca de Curitiba.

“Essência.” Iria Braga, cantora e apresentadora do É Cultura.

“Alma Lusa!” – Grupo Folclórico Alma Lusa.

“A alegria de saber de onde você veio e a quem você pertence.” Guilherme Romanelli, músico

“Emoção na estrada.” Nelson Oliveira, motorista.

“Aquilo que está na nossa raiz, no nosso imaginário e que é maturado através dos tempos.” Renata Rosa, música.

“Tudo aquilo que sempre existiu mesmo para quem nunca viveu.” Adriana Melges, produtora.

“Aquilo que mantém viva a alma de um povo.” Fernando Degui, músico.