Estou te escrevendo de um país distante

Isaac meu caro amigo,

Estou te escrevendo de um país distante.

Ainda não tive tempo de ir lá ao seu email e responder como se deve. Aí vejo lá no jornal do bairro umas tantas curtidas suas nas minhas notícias. Vi você dizendo que estava contente de saber que eu andava aqui tão longe, representando aí… tão longe.

Então me vem aquele calor do Norte no peito e agora lhe escrevo. E lhe escrevo de um país distante. Distante, como o nosso.

Eu os vejo, os dois, sempre tão próximos. E próximos, cada um a seu modo, de estar ali, com os seus (nossos) maiores sonhos concretizados. E ainda assim, não estamos ainda, próximos.

Nos dois lados, são grandes ondas e há lutas, de vários gêneros – como se diria por cá. Os dois estão em auto batalha em busca de um governo que lhe governe, que seja de fato de todos nós, o povo.

Difícil dizer como me sinto, porque não me sinto como vejo a volta: uma vaga de cansaço e um sentimento de que roubaram a esperança. Aqui, confronto tantas vezes com um amortecimento profundo, forjado por decepções sucessivas. Penso em nós do outro lado e sinto que o cansaço pode vencer se não tivermos sempre atenção ao começo do caminho.

Aqui também vivo dias de um conforto esplêndido, de andar ao lado da vida real, transitando pelo mundo e revendo as melhores gentes de sempre. Nos dias em que a realidade rasga essa viagem, dói um pouco o peito e no terceiro transporte público do dia com chuvas fortes, há uma vontade ali no canto que deseja amortecer.

E é nessas horas que a chuva tem de servir de transporte para outros dias, ali correndo em gota na janela. E aí eu os vejo, eles que viveram mais que eu, que enfrentaram outros contratempos e desafios e que ainda andam por cá, já sem a necessidade de confrontar, mas em posição de enfrentar. Os que nos inspiram, os que seguram na nossa mão e nos levam com o cuidado de dizer: enxerga mais longe, olha para aquele lugar distante do começo do caminho. E ajuntam, apressando lentamente: Já vês?

Eu por vezes não vejo querido Isaac, mas sigo, meio que no rastro do cheiro do começo do caminho. E agradeço pela chuva – nem que seja pelo bem dos agricultores.

Te revejo em breve, nos pertos de um país distante, não é mesmo?

Com amizade,
Lia

Nas praias de Benjamim
Nas praias de Benjamim.
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