16 anos, 11 filmes, 3 tempestades

16 anos, 11 filmes, 3 tempestades. Pois é, a contabilidade até que está favorável.

Ao longo destes anos e destes filmes, foram 3 tempestades.

A primeira, no meio do nada, num barquinho, quando fazíamos Tocadores – Litoral Sul em 2002. De fato, essa quase nos levou pro fundo… mas acho que estava marcado na nossa agenda sobreviver a mais outras.

A segunda foi em João Surá em 2011. E no quilombo, foram eles que me convenceram que não seria aquela tempestade cinematográfica no dia da festa que ia nos fazer perder o filme.

A terceira, em 2014, chegou antes de nós, no interior do Paraná. Levou pontes, casas e corações.

Chegamos a Góes Artigas antes do previsto. A fim de ter certeza que estava tudo bem… ou não.

Felizmente eles estavam bem. Mas seu José estava convencido de que não faria a festa. Os estragos eram grandes, as pessoas estavam tristes, as estradas horríveis com várias barreiras caídas e pontes que haviam “rodado” como nos contavam por lá.

Entretanto, nós chegamos até lá. E desta vez, era minha a tarefa de convencer seu José que uma tempestade cinematográfica não nos roubaria o filme.

Desde o nosso primeiro encontro eu tive certeza que José Moraes dava um filme. Sucessor de seu pai, além de ser o Romeiro e estar à frente da tarefa de empreender a festa da sua família, dedicada a São Gonçalo e São João, seu José é uma daquelas figuras ímpares, encantadoras. Sua lida com a vida no campo, a família, os valores, os saberes, a relação com o trabalho, com a fé, com a coletividade, sempre reluziam em nossos encontros. Seu José, como Rosa, Nucias, Leonildo, Badia, Inácio e muitos outros, traz em si o melhor que o humano pode ter. Eu sabia que ali existia um filme.

Dois longos dias de conversa e apreensão dos dois lados, eu e o compadre Stein sabendo de tudo que já estava tratado pra colocar nosso filme na lata e seu José, mais a família, pensando em tudo que se precisava tratar pra chegar na festa como se deseja.

Foi ali, na mesa da sala da Romaria, no chimarrão e no café amargo (que de doce já basta a vida), que depois de muita conversa, chegamos a conclusão que haveria festa. Eu já não sei dizer quem sofreu mais naqueles dias, seu José ou eu, ambos preocupados com nossos compromissos. Ambos querendo ver o sucesso da empreita.

Mas eu sabia que depois de convencido, seu José era ponta firme, ia lá fazer seus preparos pra deixar a festa nos conformes. E nós, compadre Stein e eu, entramos pra produção da festa! E dale fazer visita pra avisar a família toda que seu José havia decidido que teríamos Romaria. Enquanto ele afiançava os compadres pra tirar a lenha, sepilhar o mastro, fazer os ajustes na casa, nós saímos barro à dentro, para combinar com o pessoal as cenas do filme e os preparos da festa que queríamos mostrar.

E foi lindo… Cecília, a matriarca, mais forte do que nunca, nos recebeu com o sorriso de quem já venceu muitas tempestades. Rosilda e Lúcia, animadas com o filme, com os dias de ver como é que se faz por trás da tela o que aparece na frente, já tinham encomendado o papel para fazer as bandeirinhas. Rosa, santa Rosa… dia a dia, alimentou nossa equipe muito mais do que imagina! E claro, nossas meninas, Suellyn e Noeli. As donas da casa da Romaria. Filha e esposa de José. Como é que elas entraram tanto na equipe!

De repente nós e a família Moraes estávamos fazendo duas coisas que eram naqueles dias uma coisa só. Festa e filme se confundiam nos esforços para levantar as fogueiras, preparar a comida, fazer as bandeirinhas, agendar as entrevistas, decidir as locações. E lá apareciam Antonio, Lourival, Luana, Rosangela, Jackson, Felipe, Gabriel e muitos outros Moraes.

Era tudo um único desejo, de ver a festa linda, no dia e no filme.

E assim foi, tudo lindo, depois da água que lavou a terra e os nossos corações. E ficou provado pela força dos corações sinceros que depois da tempestade, vem a bonança…

 

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Nord + Est

É um medo de não cantar Reis que eu nem conto!

Sempre que eu entro num avião com a missão de levar as Folias do Norte do Paraná por aí, vou cheia de alegrias por este trabalho ter acontecido, vou sempre desejando que chegue a hora de ir junto com um grupo inteiro, tenho pensamentos mirabolantes como lotar um avião com os 9 grupos que registramos…

Até agora fui sozinha, mas de certa forma, vou sempre com eles; no livro, no documentário, nas fotos, na memória e na realização destes encontros.

Em dezembro foi a glória participar do Encontro de Folias do DF e rever amigos de velhos tempos.

Em maio deste ano, a viagem foi para outro longe. Um longe conhecido. Retornei ao Ceará e ao Cariri para levar o Norte do Paraná a outro sertão.

Em Fortaleza, na companhia dos parceiros Vanessa Louise e André Magalhães, partilhei as nossas andanças na Universidade Federal do Ceará. Bonito ver os professores e estudantes comprometidos com a pesquisa e a extensão. Importante ouvir as experiências e questões que eles geram por lá.

Em Aracati, numa ação da Universidade em diálogo com o projeto Mais Educação, o encontro com professores, monitores, alunos e sobretudo o encontro com a escola, suas necessidades, limites e sonhos. O exercício de jogar sementes e renovar esperanças.

Mas foi lá, no meu Cariri, no Cariri de cada um de nós que pude rever no Festival Canto de Reis, a alegria da festa, a razão de contá-la, o desejo de espalhá-la pelo mundo.

Com o apoio do NEAD (Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural do MDA) e a convite da organizadora, Beth Fernandes, fui acompanhar os bastidores do evento, que se propôs a dialogar com os grupos e necessidades dos mestres. Num processo intenso o festival proporcionou variados registros em foto, áudio e vídeo, buscou atender demandas como renovação dos trajes, ofereceu oficinas diversas para os integrantes dos Reisados, abriu espaços para visibilizar os grupos no município, entre outras ações.

Bonito ir ao ensaio do Reisado dos Irmãos e re-sentir aquele lampejo dos pequenos fazeres que tornam grandes as pessoas. Bonito acompanhar o cortejo pela rua principal e sentir a alegria dos mestres. Estranhamente real sentir que os Reisados desfilavam gloriosos pela avenida principal da cidade e que os olhares das pessoas as portas das lojas e casas era ainda de distância, de um não reconhecimento daquele fazer tão próximo.

No intuito de fortalecer as práticas de grupos tradicionais e reconhecer sua importância, em parceria com o Festival, realizamos um encontro especial no lançamento do livro, voltado aos mestres e membros dos grupos, para falar da importância do registro, da necessidade da documentação e divulgação da história de gerações e gerações de mestres e grupos de tradição.

Neste encontro, a oportunidade de contar a experiência do projeto Folias do Norte do Paraná, de ouvir os depoimentos dos mestres locais, de trocar impressões e de reafirmar nossa disposição no árduo trabalho de pensar caminhos para a tradição na contemporaneidade. Representantes de mais de 10 grupos da região, enriqueceram a conversa, receberam um exemplar do livro e do documentário, trocaram contatos e alargaram nossas visões sobre o tema. Um marco importante fortalecer este diálogo e reafirmar um projeto de aprendizado coletivo.

E como é óbvio, não dá pra ir longe assim e deixar de visitar os amigos velhos. Um sopro de Graça voltar a Nova Olinda e rever os meninos e meninas da Fundação Casa Grande. Estar com Alemberg, Rosiane, Fabiana, Aécio, Helinho. Que bom que é… Rever esta gente amiga e com eles partilhar as alegrias e desafios. Que bom que é…

Como é óbvio, não dá pra ir tão longe e não fazer novos amigos. Um deleite contar com Dane de Jade para chegar a Escola de Reisado do Mestre Aldenir. A visita foi tão rápida que poderia parecer a olhos desatentos que passou despercebida. Não passou não. Foi intensa. Trará frutos.

Roubo um verso que me contaram lá na escola, foi feito pelo pequeno, que terá talvez 3 ou 4 anos. Disse ele com o dom:

Os cacete é pra bater

Os homem é pra dançar

Os menino é pra correr

E as cadeira é pra sentar.

E assim, no resumo da genialidade, só me resta agradecer a todo mundo que tem um medo de não cantar Reis… que resolve cantar e cantar e cantar mais um pouco que é pra garantir…

Em movimento. Reisado Discípulos do Mestre Pedro. Juazeiro, Festival Canto de Reis, 2014.
Em movimento. Reisado Discípulos do Mestre Pedro. Juazeiro, Festival Canto de Reis, 2014.
Oficina com os mestres. Troca de saberes, de alegrias, de dúvidas, de desejos para o futuro. Juazeiro, 2014.
Oficina com os mestres. Troca de saberes, de alegrias, de dúvidas, de desejos para o futuro. Juazeiro, 2014.