Inami, Romão e o tempo

Hoje morreu aos 83 anos Inami Custódio Pinto.

Referência incontornável para a pesquisa e documentação de tradições populares do Brasil, e sobretudo, do Paraná.

Inami é da turma que abriu a estrada a facão para quem vem hoje. Foi incansável em um momento no qual o fandango era um assunto fora das pautas artísticas, pedagógicas e políticas.

A sua figura, para mim, está associada a um tempo de início do meu interesse sobre a música tradicional e lembro bem das sessões de entrevistas com ele (acompanhada pelo amigo e músico Ricardo Rosinha) no Conservatório de MPB de Curitiba. Naquele tempo Inami tinha tantas vitórias quanto tristezas – de ver sua enorme obra espalhada e ouso dizer, incompreendida. As histórias de desventuras e falta de apoio que nos contou eram assustadoras. Seu percurso de luta e de continuidade me inspiraram em diversos momentos.

Hoje em seu velório, olhando pela última vez o professor, tive algum alento ao pensar que nos tempos mais recentes ele pôde desfrutar de homenagens como as empreendidas por Lídio Roberto e tenha visto uma série de projetos que trouxeram seus escritos e pensamento a um alcance mais alargado.

De minha parte um sentimento de dívida com Inami. Há algum tempo não o visitava e embora tenha lhe enviado boa parte do que produzimos por cá, nem tudo consegui fazer chegar às suas mãos. Hoje, em seu velório, vieram-me lágrimas aos olhos ao ver lá no fundo do corredor, caminhando vagarosamente, Mestre Romão, que subiu a serra e veio de Paranaguá para dar um adeus ao companheiro.

Juntos, Inami e Romão formaram o grupo de Fandango Mestre Romão nos fins da década de 1960. Uma iniciativa de extrema importância na longa história de articulação da comunidade fandangueira.

Em prosa com Romão, 85 anos, um sentimento de que não damos mais conta de dar conta da vida moderna. Ultimamente, creio eu, meu modo de funcionamento poderia bem ser descrito como: em atraso. Tanto por fazer e o tempo passando… A visita a Inami, ficou por fazer…

Olhando em volta no velório, Inami, Romão, Midi (do Grupo Meu Paraná) e a sensação de um outro tempo, de um outro modo. Não necessariamente melhor. Também eles enfrentaram os grandes desafios de seu tempo. Agora nos cabe enfrentar os nossos.

Inami nos deixa generosamente, com uma grande obra, uma contribuição inestimável. Eu fui lhe ver hoje um pouco pra dizer – a ele e a mim mesma – que só poderia pagar a dívida continuando a trabalhar, seguindo o caminho com persistência. Quem sabe ele aceitará por paga…

Em muitas oficinas pergunto quem é que conhece Inami, ou Romão, ou o fandango. Muitos nunca ouviram falar. Conto-lhes um pouco desta história, para que como eu, fiquem mais ricos, tenham mais sorte, aprendam mais com eles, os que podem ser chamados Mestres.

Grupo de Fandango Mestre Romão, Paranaguá, 2005. Foto: Zig Koch/Projeto Tocadores
Grupo de Fandango Mestre Romão, Paranaguá, 2005. Foto: Zig Koch/Projeto Tocadores
Anúncios

Onde reside o amor

Antes de conhecê-lo, já era admiradora da sua vasta obra. Nas minhas tardes de etnologia com o Tejo ao fundo, descobri as palavras e submergi nas impressionantes imagens que o etnólogo português Benjamim Pereira produziu ao longo de décadas de um contributo inestimável para a história e a cultura de seu país.

Incansável, inacreditável, intangível. Pleno e com espaço. Um homem, que visto de perto, foi ainda mais impressionante.

Já contei muitas vezes esta história, mas é tão decisiva, que volto a ela: A primeira vez que o vi ao vivo e a cores, em Idanha-a-nova, fui arrebatada pelo seu espírito inconfundível. Benjamim nos disse: “O futuro? Ah, o futuro… Não tenham medo do futuro!”

Não foi apenas o que ele disse, mas como ele disse. Ele já tinha me ganhado muito antes. Mas ali… pronto… Nascia um grande amor. Pelo mestre, pelo exemplo, pelo desejo de ser melhor.

Não sei se ele saberá um dia o impacto destas palavras. Bonito, no frescor da dúvida, ouvir um mestre que tanto lutou, perdeu e ganhou, dizê-las com tanta certeza (ou seria, leveza).

Algum tempo depois, naquilo que por vezes chamamos sorte, mas que na verdade é dádiva, tive a sorte de tê-lo no lançamento do meu livro Tocadores Portugal – Brasil: sons em movimento. De passagem por Lisboa, rumo aos EUA, ele foi.

Lá estavam, naquela inesquecível sessão preparada pelo também meu mestre Domingos Morais, amigos inestimáveis: Rui Vaz, Zé Manuel David, Amélia Muge, Zé Barros, Celina da Piedade, Barbara Alge, Conceição Correia, Lucia Serralheiro, Ana Paula Guimarães, os Tocá Rufar com uma orquestra de bombos que invadiu a universidade e muitos outros. Foram todos cantar de surpresa na festa e lá estar em conjunto, em festa… Vejam só que lindo…

Benjamim havia cedido algumas de suas imagens para o livro em uma carta de próprio punho que eu recebi com tanto orgulho, com tanta emoção muito antes deste dia em que o encontrava cheia de alegria.

Vê-lo ali, comigo, depois de tantas idas e vindas pelo nosso Portugal – as dele, muitas mais que as minhas – rodeados por gente tão fundamental para a música tradicional portuguesa, todos em festa, era um sentimento quase de transcendência. Ali estava o amor.

Entre os bombos e as visitas queridas, não resisti. Tinha de lhe perguntar, o que achava ao ver o livro pronto. Sempre um risco. De homens como ele, sairá sempre sinceridade.

Não conto suas palavras – são só nossas – mas digo que me deram novas levezas, velhas certezas. Não as esquecerei. E de novo, não foi só o que ele disse, mas como ele disse.

Sempre que o visito, ao vivo ou em pensamentos, saio com tanto. Sinto que fiz ainda tão pouco, sinto que há tanto por absorver deles, os mestres. Já somam um bom bocado nossos encontros pela vida. E são ainda tão poucos…

Benjamim: hoje tive notícias suas. E vou dormir com a promessa de que vamos nos rever neste ano.

Bons sonhos, aos mestres e aos que tem a dádiva de tê-los.

lia_dm_bp
Com Benjamim e Domingos, rodeada pelos mestres. Feliz. 2009.

 

 

 

 

 

Com Benjamim, em dia de festa, lançando o livro Tocadores Portugal - Brasil: sons em movimento. Lisboa,  Universidade Nova. 2006.
Com Benjamim, em dia de festa, lançando o livro Tocadores Portugal – Brasil: sons em movimento. Lisboa, Universidade Nova. 2006. Ao fundo a amiga Conceição Correia e na blusa, o presente feito pela Amélia Muge. A nossa frente, fora da foto, Celina no Acordeom e Zé David na gaita. Ali, naquele dia, residia bem forte, o amor.