Confissões curitibanas

Eu sou vizinha do Vampiro. Moramos perto. E não raro passo a sua porta e dou com ele entrando ou saindo, varrendo a calçada da varanda, ou entrevejo sua figura por trás da cortininha clareada.

Hoje, dei por mim no sinal da esquina, dentro do carro parado, e ele chegou com uma sacolinha de livros. Olhei com afinco. Ele de costas, abrindo o portão. Mas quando entrou e voltou-se para fechá-lo, senti grande vergonha de roubar-lhe a privacidade, justo a ele, que preza por isso. Fugi com os olhos bem depressa. Já ele tinha sentido este ato insólito. E eu, senti o olhar do autor sobre mim. Tentei não cair na tentação de encará-lo. Parecia que ele adivinhava no meu olhar, a minha escrita e a falta dela. A sensação, que eu também já senti, de ser olhada por quem já te leu, e entretanto, você não reconhece. Eu não queria roubar-lhe vulgarmente o silêncio do cotidiano não visto, do fazer perdido. Mas era tarde. Rendida, olhei-o nos olhos com um sorriso incontido. Quando eu cheguei nele, já lá estava um sorriso de entendimento da minha tentativa de não lhe roubar nada. Acenei-lhe, como para quem se conhece. Dalton respondeu com um sorriso generoso, de quem sabe que lhe reconheço pelo livro. Deu com a cabeça como quem diz: “Vai pra casa, escreve e é isto.”

Obedeci. E acabou-se. Cá estou… escrevendo.

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20 mil downloads do Caderno de Danças do Alentejo!!

O Caderno de Danças do Alentejo chega aos 20 mil downloads!

O Alentejo e seu Cadernos de Danças pelo mundo… que bom.

Adoro estes bailes e toda vez que eu ensino, só vejo uns sorrisos, abraços, olhares bem contentes.

Lá está em: http://memoriamedia.net/dancasdoalentejo/  Disponível em duas edições: Português ou Inglês.

Obrigada ao Alentejo e a todos que fizeram deste livro um baile a parte. Um especial agradecimento às Papoilas do Corvo, Atabuas, amigos de Melides e das Valsas Mandadas, todos do Alentejo que deram entrevistas e que ensinaram as danças e as memórias dos bailes. E claro, um agradecimento aos colaboradores Domingos Morais, Celina da Piedade, Pedro Mestre, Manuel Araujo, Patricia Teixeira, Paulo Oliveira, Miguel Barriga, que acompanharam de perto o projeto e fizeram a diferença.

20 mil downloads do Caderno de Danças do Alentejo! Foto: Priscilla Fiedller.

Memórias com Calouste

Há tempos que eu não me lembrava dos meus dias com Calouste… E ele foi sempre tão importante para mim…

Lembro-me agora, quando volto àqueles dias da minha bolsa de estudos, concedida pela Fundação Calouste Gulbenkian, da felicidade que sentia quando dobrava a esquina da Avenida de Berna e avistava a imponente estátua, Calouste e seu grande pássaro, a minha espera, à espera de novas de Trás-os-Montes, ou da Beira, do Alentejo ou das nossas ilhas de brumas. Lembro agora das minhas conversas com Calouste e o pássaro, de dividir com eles as alegrias e angústias de andar pelo país a dentro. Terra que nos acolheu e que nos fez dela.

Por conta daquele tempo, outros vieram. Meu Portugal mudou por conta daquela época de ouro e esquinas de Berna.

Hoje, escrevendo um breve depoimento sobre este período, a pedido da Fundação Gulbenkian, volto àqueles dias singulares em 2005 e 2006 e sinto o quanto foram definitivos para o que ainda estava por vir…

Contente por ter aqueles dias, hoje relembro com este depoimento:

Minha estada em Portugal com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian, entre os anos de 2005 e 2006, foi um divisor de águas na minha relação com o país.

De certa forma, durante minhas pesquisas, tornei-me um tanto portuguesa numa viagem que durou quase um ano e levou-me pela primeira vez a muitas terras não visitadas deste país que, como no caso de Calouste Gulbenkian, tornou-se também meu.

Inicialmente como todo estrangeiro, pude experimentar o lugar transitório do viajante, o sentido de não ser, não estar. Mas foi nesta viagem que tive o tempo necessário de sentir a vida portuguesa, de me fazer inserir na paisagem, de andar em outro ritmo, de ouvir e deixar reverberar outros sons, de perceber o encontro. Um andamento imprescindível para escrever Tocadores Portugal – Brasil: sons em movimento, livro que resultou deste período de aprofundamento nas reflexões sobre as relações da música tradicional entre as duas pátrias.

Curiosamente, hoje releio este volume – que trata de idas e vindas, apropriações, transformações – e revisito um tempo em que a música e a tradição definiram meus caminhos futuros, moldaram uma conduta que vem da aldeia, que é constituída pela própria experiência do encontro, que deseja o essencial como um caminho para uma cultura da paz.

No Alentejo, com as Papoilas do Corvo, em 2010, comemorando um livro pronto.
No Alentejo, com as Papoilas do Corvo, em 2010, comemorando mais um livro pronto.
No mesmo dia, mais tarde, em outra aldeia, com Dona Ana, que me deu histórias e tapetes mágicos. Alentejo, 2010.
No mesmo dia, mais tarde, em outra aldeia, com Dona Ana, que me deu histórias e tapetes mágicos. Alentejo, 2010.

Carimbó!!!

Momento importante para o carimbo! Lá no Norte, hoje mesmo, todos reunidos em Belém com mestres e lideranças do Carimbó de Marapanim, Santarém Novo, Curuçá, Terra Alta, Salinas, Colares, Vigia, São Caetano de Odivelas, Santa Bárbara do Pará, Maracanã, Irituia, Belém, Ananindeua e Marituba, entres outros, para em conjunto fazer valer o processo de registro do carimbó como patrimônio cultural do Brasil, processo que também viveu nosso fandango caiçara.

Um processo que no caso do carimbó começou em 2006 e agora chega a mais uma etapa, mais uma vitória, pelo registro, claro, mas a meu ver, antes disso, pelo processo, pelo envolvimento, pelo exercício da articulação e da valorização do fazer junto.

Eu que acompanho meio longe, meio perto esse caminho tão bonito, que recebo sempre novas do amigo Isaac Loureiro, aqui do Paraná sinto hoje o calor sufocante do Norte no peito e quase que estou lá, em pensamento e em desejo de ver esse processo continuar, seguir rumo a outras conquistas, individuais e coletivas – pois claro, quando escolhemos trabalhar em conjunto, mudamos, cada um de nós, a seu modo, a seu tempo.

A vontade de ver é muita, a vontade de abraçar os amigos é muita, a vontade de estar no baile para celebrar, essa é sem medida. Viva o carimbó! Viva todo mundo que lá está! Viva a tradição brasileira e viva os sons do mundo!

E para quem quer saber mais sobre o carimbó e seu registro como patrimônio:

Blog da Campanha do Carimbó

Campanha do Carimbó no facebook

Consulta Pública Dossiê do Carimbó / IPHAN

Em tempo:

CAMPANHA DOE UM PALETÓ PARA O CARIMBÓ

Rejane Nóbrega teve uma idéia genial e lançou uma campanha para ajudar o Carimbó de São Benedito no Pará.
Esta comunidade, da qual faz parte o nosso amigo Isaac Loureiro, organiza uma festa tradicional de 11 dias. Durante este período, para entrar no barracão e dançar o carimbó os membros devem estar trajados com paletó e gravata.
Se você está em Curitiba e pode colaborar, deixe seu paletó aqui na Olaria – Projetos de Arte e Educação e faremos chegar até a Rejane.
E quem quiser saber mais, fica a dica para conhecer: https://www.facebook.com/carimbo.saobenedito?fref=ts