O lugar dos afetos

Tarde, tarde… e a mesa cheia de papéis e pilhas de atrasos… Mas eu não ando com vontade de resolver o que se deve. Eu ando com uma vontade estranha que me faz andar em outro passo.

Pois é… o tempo anda mesmo esquisito. Eu não tenho dado conta dos compromissos do real.

É que eu tenho andando a volta de umas experiências que tem me interessado – mas tanto, mas tanto – que eu até ando achando que elas é que são o real!

No meio das correrias e questões práticas, das reuniões pra captar o dinheiro dos filmes e da incontornável ida ao supermercado, eu tenho tirado mais tempo pra viver e refletir sobre o lugar dos afetos.

Os afetos e o lugar disto no mundo. Esse é o encontro que tem me interessado. E pensando nisso, eu vejo que o tempo não pode ser um inimigo. Ele tem que ser usado para aproveitarmos mais do melhor.

Parece-me que a corrida é tanta que não temos conseguido desfrutar. E há tanto por desfrutar… As pessoas, a música, a paisagem… tanto na vida quanto na arte, há tanto para amar.

Não vale a pena ser refém da emergência.

Um pouco neste espírito eu fui arranjar encrenca, proposta também por um amigo que eu sempre digo que é um homem à frente de seu tempo. E como todo homem à frente de seu tempo o amigo José de Melo enfrenta as encrencas de um tempo que também não anda muito pra frente.

E foi um pouco numa história comprida demais pra contar aqui que acabamos arranjando meio de fazer umas boas trocas para todos os lados e eu acabei com a oportunidade de gravar a segunda temporada da série Café com Mistura.

Uma série que nasceu dessa vontade de viver os afetos. De ter tempo para o encontro.

Curioso isso… A série – nas duas temporadas – foi um trem pra fazer; sem dinheiro, caçando agenda de vários pra fechar cada dia de gravação, numa trabalheira doida – que passa e só deixa satisfação.

Dá um gosto tão grande realizar estes encontros com gente tão importante pra mim e que eu de fato acho tão importante pro mundo, pra fazer dele um lugar mais afetuoso. É… não dá pra não fazer.

Não vale a pena não nos encontrarmos. E quando nos encontramos ali eu percebo, de novo, que só dá pra fazer, que é preciso experimentar pra consolidar. Experienciar para dizer que viveu aquilo ali, naquele tempo, naquele lugar.

A série vem no meio de uma conversa maior, que quer falar da tradição na contemporaneidade, mas que quer, sobretudo, dialogar com artistas que foram buscar nas suas raízes, nas suas culturas, nos viveres próprios de cada lado, os afetos que movem sua produção na arte, sua posição na vida.

E aí não tem jeito, é um prazer só. Estar com eles, comendo e conversando e rindo e refletindo sobre temas tão queridos por nós, ouvir destas figuras lições que nutrem tanto. Ai que bom que é aprender assim! Vale total a pena atrasar o resto.

Um cultivo do afeto nestes programas, cada um em um espaço tão diverso aqui na cidade, como diverso é o mundo, como diversos somos nós. Cada um com um caminho próprio, que nasce ali, no encontro. Todos com um propósito de celebrar.

Eu até acho que alguns destes entrevistados eu posso mesmo chamar de amigos. Outros, acho que estão mais na categoria de mestres. Difícil também separar isso quando se trata de gente tão generosa que te acolhe e diz: “Vem cá, vamos conversar sim.” Mas de todos, eu sinto uma proximidade, uma vontade de abraço, uma alegria de estar perto, um sorriso só de pensar que gente linda fazendo coisa boa por este mundo a fora.

Muito bom imaginar que esta conversa em breve sai de nós e se estende a tantos outros pela tela da TV. Talvez quem veja – como eu – esteja também sentindo o desejo de cultivar o afeto; pelo próximo, pela arte, pela tradição e pelo tempo, pelo nosso tempo; pra fazer dele nosso aliado, pra podermos contar com ele pra viver melhor, pra viver afetuosamente o presente que temos aqui, ao alcance da mão.

E pra não deixar de dizer, fazem desta série um lugar de afeto na primeira temporada os queridos Itaercio Rocha, André Magalhães, Aorélio Domingues e Jean Jacques Lemêtre, amigos da casa. E chegam mais perto nesta segunda temporada os adoráveis Paulo Freire, Nélio Spréa, Carlos Daitschman e Benjamim Taubkin. Bonitos que só…

IMG-20140122-WA0000
Na Capela Santa Maria, o programa com Benjamim Taubkin. Foto: Melanie Narozniak.
No Palacete dos Leões, o contador de histórias Carlos Daitschman. Foto: Rafael Bloom.
No Palacete dos Leões, o contador de histórias Carlos Daitschman. Foto: Rafael Bloom.
Nélio Spréa e Lia Marchi no Café com Mistura gravado no Museu Paranaense. Foto: Rafael Bloom.
Nélio Spréa e Lia Marchi no Café com Mistura gravado no Museu Paranaense. Foto: Rafael Bloom.