Achados e perdidos

Dia de Reis!

Muitas vezes eu me pergunto o que é que me fascina tanto nas folias de Reis. Já são tantos anos acompanhando estas jornadas e quando eu estou lá, encontro ainda um frescor, como se realmente fosse novo para mim.

Sentada aqui no silêncio, começando um novo ano, volto à festa no coração e reencontro aqueles olhares, de quem se encontra para reafirmar que acredita; seja no nascimento do Menino, seja no poder dos Reis, seja na benção de ter passado mais um ano e vencido seus muitos desafios, seja na força do celebrar em comunidade.

Eu costumo dizer que a folia é o mundo. E mesmo com suas contradições, como o mundo, a folia me encanta. Eu adoro rever esta fé cantada por homens (e mulheres) que atravessam um ano em geral tão árduo e tem uma disposição tão solidária. No fim do ciclo, lá vão eles, dias e dias, fazer intermináveis visitas cujo propósito é levar a quem pedir um pouco de esperança, de votos de bênçãos sem medidas, um pouco da companhia de verdadeiros Reis.

Em geral chega o fim do ano e andamos todos exaustos, reclamando mais que propondo, prontos para um abandono de corpo e mente e de repente esta gente mágica se junta em uma familiaridade ímpar construída em bases tão profundas que até assusta. E saí. Vão-se embora, levados por uma bandeira, dispostos a obedecer ao mistério da caminhada e prontos a enfrentar um destino inegável da partilha.

Eu sei que deve parecer épico ou romântico a quem lê de longe, de fora. E ainda bem, porque é de fato épico e romântico nos dias atuais sair de casa em casa incitando o amor aos seus próximos. Eu realmente acho que é mais fácil amar os distantes e mais exigente amar os próximos. Os foliões exercitam esse amor ao próximo em cada casa, em cada verso.

Isso tudo revejo por conta do meu reencontro com um tempo em que a folia foi de fato novidade para mim. Depois de 11 anos voltei ao Encontro de folias de Reis do Distrito Federal, corajosamente organizado pelo amigo Volmi Batista e atualmente abraçado, de forma tão bonita, pela Associação de Folias de Reis do DF, que reúne grupos locais e participações bem dispostas como a do Marcelo Manzatti.

Eu fui ao Encontro tão cheia de vontade, tão desejosa de rever os Tocadores que lá conheci em 2002 e que fazem parte do meu primeiro livro: Tocadores – homem, terra, música e cordas.

Logo na chegada o primeiro que eu vejo é Zé Nucias, da folia de Reis Irmãos Vieira, igual, com seu ar de príncipe da folia. Passaram tantos anos e lá estava o Zé, com os 4 filhos criados, 2 vivendo de música, o grupo em franca atividade, as meninas dançando catira. Uma satisfação passar a tarde ali, sabendo o que passou com eles nestes anos que nos separaram e contando o que passou comigo.

O Zé eu ainda encontrei algumas vezes no meio destes 11 anos, mas alguns como Domingos David, Ceary, Dona Gersina, eu nunca mais havia visto. Alguns já falecidos, conheci os filhos, que hoje governam as folias de seus pais, como o caso de João Timóteo que deixou um time sensacional no comando da companhia. Revê-los, tão bem, com tanto pra dar, envolvidos na Associação e no projeto de conversar sobre os modos de fazer para continuar fazendo, engajados no processo… tão revigorante.

Eu fui ao Encontro para revê-los, mas na verdade, com uma alegria especial. Fui oficialmente para lançar o livro e o documentário das Folias do Norte do Paraná, oferecendo a cada grupo um exemplar da publicação, graças ao apoio do NEAD (Núcleo de Estudos Agrários e Desenvolvimento Rural), que nos possibilitou realizar esta pesquisa e este lançamento com cara de presente.

Foi especialmente emblemático passar este filme aos foliões, sempre em condições de projeção difíceis, mas valendo a pena este pequeno desgosto, ao ver que eles viam nas folias do Norte, seus próximos, que queriam saber, que lhes fazia sentido. Todos juntos sentimos de novo o brilho que nos invade no giro.

Ao final da conversa Dona Gersina tomou o microfone e fez um breve discurso sobre estarmos juntos, mesmo tão distantes. Outros vieram me dizer que o livro Tocadores era emprestado pela cidade toda, que sempre alguém queria “uma consulta” e que estavam contentes de levar hoje o livro das folias do Norte. Lágrimas nos olhos por ouvir deles, que não me viam há tanto, dizer que sentiam o que eu também sinto: que de fato andamos juntos, unidos por uma espécie de fé em um plano de um futuro melhor para todos.

Talvez eles nunca saibam de fato a importância que aqueles primeiros encontros com a tradição e as festas do Brasil profundo tiveram em mim. O quanto eles e nossas conversas mudaram os meus rumos, ou só me fizeram encontrar o rumo.

Ao final daqueles dias calorosos, um sentido de dever cumprido, um sentido de dívida por tanta ausência, um sentido de alegria pelo reencontro sincero, um sentido de gratidão por saber que andamos todos, cada um com a sua companhia, fazendo a sua parte no hoje, em uma jornada pelo tão sonhado mundo mais fraterno.

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Com Zé Nucias, no Encontro de Folias do DF. Dezembro, 2013.

 

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Com Domingos David, emocionada ao rever o Mestre 11 anos depois do primeiro livro. Dezembro, 2013.

 

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Bem feliz de acompanhar as conversas na Assembléia da Associação de Folias de Reis. Dezembro, 2013. Fotos deste post: Marcelo Manzatti.

 

 

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