Mulheres em todo o mundo

Eu já tinha ouvido falar por alto da Marcha das Vadias. Mas eu não sabia o que era. Ainda não tinha tido tempo de ir ao Google dar uma espreitada.

Estes dias recebi no Facebook uma informação sobre a marcha que vai acontecer em Curitiba, no próximo dia 14. E fui atrás de descobrir do que se tratava.

A Marcha das Vadias é uma coisa recente, começou em 2011 e protesta contra a crença de que mulheres vítimas de estupro “pediram por isso” por causa de suas vestimentas. Isso na verdade foi dito por um policial e para quem quer saber mais, qualquer dois minutos na Wikipédia colocam a par da bizarrice deste comentário em pleno século XXI.

O que me chamou a atenção foi um dado justamente da própria Wikipédia que diz:

“A primeira Marcha das Vadias no Brasil ocorreu em São Paulo em 4 de junho de 2011, organizada pela publicitária curitibana Madô Lopez. Após o anúncio do evento com a criação de uma página no Facebook, mais de 6000 pessoas confirmaram presença no evento. No entanto, diferentemente das versões em outros países, somente cerca de 300 pessoas compareceram, de acordo com a contagem da Polícia Militar.”

Esta informação me chamou a atenção para tantas febres do momento, como por exemplo as relações via Facebook – onde eu mesma ainda estou dando os primeiros passos e confesso tenho alguma dificuldade em me mexer, ou a dificuldade de participação em movimentos associativos que me parece ser também algo marcante nos dias atuais.

Entretanto, o que me veio a mente com força, com real significado e pesar, foram várias entrevistas que ao longo de anos de trabalho de campo com comunidades rurais fui fazendo no projeto Tocadores no Brasil e em Portugal.

Lembrei de tantas mulheres que me contaram, algumas vezes com lágrimas nos olhos (nos delas e nos meus) de histórias tão difíceis de abuso, de pedofilia, de violência familiar. Por vezes, eu soube na própria comunidade que fulano ou ciclano, isso ou aquilo sobre este tema. E quando perguntei por que é que ninguém denunciava o fato, as respostas eram todas envolvidas por questões que nos paralisam em diversos departamentos da vida: medo, vergonha, falta de provas, quem era quem dentro daquela comunidade e assim por diante.

Mesmo acreditando profundamente que é difícil para os homens achar seu novo papel em um mundo no qual as mulheres conquistaram nas últimas décadas muitos direitos e espaços na sociedade. Sei que é ainda mais difícil para as mulheres terem estes direitos assegurados e respeitados pela sociedade.

Fiquei imaginando a possibilidade de uma Marcha das Vadias em algumas das comunidades rurais que visitei e acho que ainda hoje ela é impossível por estes sertões. Talvez nem fizesse sentido por lá… ou mesmo sendo bem necessária, simplesmente fosse inconcebível.

Mas o que não faz sentido mesmo, em nenhum lugar do planeta, seja na cidade grande ou no interior, é a violência física e emocional dentro das famílias e das comunidades contra qualquer ser humano. Sabemos pelos dados que as mulheres e as crianças são as grandes vítimas.

E tristemente ao visitar alguns interiores do país repetidas vezes, percebo ao longo do tempo que o lastro da violência se espalha, modifica a cultura e os corações, tira oportunidades e fecha portas.

Provavelmente eu não estarei em Curitiba dia 14 para ver como será a Marcha por aqui. Fico pensando se ela terá público na cidade…

Fico torcendo para que todos marchem, não necessariamente no dia 14, mas todos os dias, pelo fim da violência, e pelo fim de idéias violentas como a de que alguém possa “pedir” por isso.

Marcha das Vadias CWB

 

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Em Julho: Oficina de Danças Portuguesas

Caros amigos e alunos,

De 15 a 21 de julho ministro a oficina Danças Portuguesas e Danças do Mundo no Festival de Música de Ourinhos!

Estou muito animada com o curso que traz clássicos do repertório trad como a Erva Cidreira e o Pingacho e muitas novidades para bailar a semana toda.

Aproveitem para dar uma olhadinha no programa do curso na página do festival.

Espero por vocês!

Lia