Está tudo bem

2010 terminou atrasado. O ano emendou e só acabou depois do tempo de Santos Reis. Até meio de janeiro eu ainda vivi o ano que já foi: intenso, desafiador, na estrada.

De regresso do Norte com a mala cheia de folias e de alegrias, desembarquei em 2011 e o ano pôde enfim começar. Cheiro de casa nova, novas alvoradas. Um ano, de verdade, novo.

E veio cheio de boas novas o bendito!

José Muniz lançou seu primeiro livro, sobre a romaria do Divino Espírito Santo no litoral do Paraná, uma alegria para todos nós. Vale conferir e aplaudir esta figura impar que é o Zé, um ponto de referência na produção cultural das novas gerações de caiçaras.

Aorélio Domingues ensaia a Orquestra Rabecônica, que logo vai dar o ar da graça aos nossos ouvidos.

Em Curitiba, Seu Inácio, mestre de folia de Reis, afinal saiu com a bandeira, mesmo diante das más notícias do ano que passou e fez uma chegada comovente, com uma folia inteira e cantar para o ano que entra com a esperança de uma vida melhor.

Em nosso filme Dias de Reis (2009), seu Inácio conta a história de sua folia e da vida de tantos migrantes brasileiros que saíram do campo pra cidade em busca de uma vida menos sofrida. E ontem, na chegada da bandeira, a força de uma tradição ressou nas vozes, nos instrumentos, nos rostos e nos olhares dos foliões e das famílias. Alguns anos se passaram e as crianças menores lá estavam ingressando no giro, os mais velhos, lá estavam repassando os versos. Seu Inácio lá estava à frente da companhia, do alto de seus 82 anos, só pra dizer que passou mais um ano e que é bom comemorar o “estar junto”. Grande figura…

E nós, aqui em casa, vamos fermentando as novas aventuras. Começamos um ano cheio de fotos e frames dos sons que invadiram janeiro. Um mês que me deu o prazer de redescobrir as folias, revisitar o campo, re-ouvir antigas conversas comigo mesma. E melhor, acompanhada por uma equipe de novos e velhos parceiros, que dividiram pra poder somar, que usaram seus melhores talentos pra contar uma história que eu mesma só contarei em alguns meses. Um prazer multiplicar esta conversa com estes bravos cavaleiros…

Uma viagem entre o campo e a cidade, entre o som e o silêncio, entre a festa e a fé. E nela, a percepção que somos todos humanos, que estamos todos no mesmo barco. Dale remar sô!

E já que este post vai sem foto, vai com verso, o último que a folia cantou ontem pra encerrar a bandeira este ano:

Quem fica, ficai com Deus
Que nós vamos com ele também
Se a morte não me matar
Cá estou pro ano que vem

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