On air

On air

Já fazia muito tempo que eu não sentava na janela do avião.

Desta vez, calhou de ser bem na janela sobre a asa.

Lá embaixo, no meio da noite escura, rompia um sem fim de brilho. São Paulo nunca me pareceu tão grande e ao mesmo tempo tão pequena como parece desta minúscula janelinha da alma do pássaro.

Ao meu lado, a lua cheia pousada sobre a asa resolveu estar magnífica, só pra lembrar que as forças do homem nunca vão vencer as da natureza, muito embora a eletricidade neon da megalópole queira desafiar este preceito.

De lá de cima a cidade é tão pequena, somos tão relativos. Nas luzes amareladas os sonhos e projetos de tanta gente. Nas luzes em movimento as pessoas em seu caminho. Será que elas querem chegar? Ou continuará o trânsito muito lento pela falta de vontade?

Penso em grandes amigos espalhados por grandes cidades do mundo e nas luzes que deles se vêem de lá de cima. De Paris a Cingapura, de Londres a Seatle, do Rio de Janeiro a Buenos Aires, em poucas horas será Lisboa e eu começo uma viagem por um novo livro. Em poucos dias já estarei querendo enxergar a tal luz no fim do túnel que todo autor teme que seja um trem a meias do caminho.

Mas aqui em cima, vendo as luzes diminuírem com a subida da máquina, a lua parece dividir meus pensamentos. Conta-me novamente das memórias lunares. Divide comigo a sensação de ser tão observada e, entretanto, apenas entrevista.

Em poucos dias, será lua nova, será nova etapa, outros livros, outros filmes, obra em caminho.

Pra já, deixo aqui uma obra que eu vi pela primeira vez em Portugal, em 2004 e que dá janela do avião, relembro: a exposição “A terra vista do céu”, de Yann Arthus Bertrand e pelo seu olhar, nossa casa.

http://www.yannarthusbertrand2.org/

http://www.home-2009.com/us/index.html

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Navegar é preciso…

Navegar é preciso…

Viagens de pesquisa são sempre viagens de aventuras.

Uma mala ou um container? Impossível decidir… Melhor levar os dois.

Em setembro carrego as malas e alguns containers para Portugal.

Graças a bolsa concedida pela Organização dos Estados Ibero-americanos terei a oportunidade de continuar a pesquisa sobre as danças tradicionais e populares do Alentejo. Um projeto que invadiu 2010 e mudou meu calendário.

Para quem quiser saber mais, ou dar uma vista d´olhos nas danças vai aqui meu outro blog, com vídeos, fotos, textos e novas da pesquisa:

http://arquivodancasalentejo.wordpress.com

E por aqui, vou aproveitar para registrar um outro lado da viagem, que não cabe no blog das danças.

Um Portugal de outros sons, outras vozes, outras artes. E claro, vou trazer novas dos amigos e das oficinas que vão rolar por lá nesta viagem que vai até fins de outubro.

Em breve, meu Portugal de viagem chegará a este blog.

22 de agosto

22 de agosto

Dia 22 de agosto é Dia do Folclore. Uma palavra que atravessou o século XX e ficou pequena para falar de um assunto tão grande…

Culturas populares, tradição, etnomusicologia, folclore. Tantos nomes e muitas vezes as palavras não bastam para explicar a festa, a fé, a razão e o sentimento.

Parece-me em geral, que mais que o nome, importa o ato, a vivência, o que se aprende com tanta gente diferente, o que se faz com o que se aprende.

Na falta de palavras, empresto algumas que traduzem melhor o meu sentir.

Em homenagem a toda a diversidade dentro de cada um de nós, Traduzir-se, de Ferreira Gullar:

 

TRADUZIR-SE

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
– que é uma questão
de vida ou morte –
será arte?

 Ferreira Gullar

Da terra ao Céu

Da terra ao Céu

Passa das 22hs e em Faxinal do Céu, interior do Paraná, ando pela rua deserta. O frio é tão intenso que quase não sinto meu próprio corpo, tão apertado que está dentro do casaco.

A natureza é intensa também. Enquanto ando pela rua vazia, ouço o vento que em Faxinal tem um poder… É um som tão forte, tão alto, tão profundo. É como a força divina entre as Araucárias nos lembrando do nosso pequeno tamanho diante da perfeição da criação.

Há muito tempo ouvi falar deste centro de treinamento do governo estadual que fica isolado de tudo. Não funcionam os celulares, quase não há internet e uma intensa programação durante o dia e parte das noites nos coloca em outro universo. Quase 500 pessoas passam por uma semana que funciona como um “workshock”. É tudo intenso em Faxinal…

Estou por estes lados para dar uma série de oficinas sobre cultura popular para as educadoras(es) e coordenadoras(es) de um projeto que começou em 2009 e tem a missão de criar mais leitores.

São os Círculos de Leituras. O projeto é um braço do Paraná Alfabetizado, programa do estado para alfabetização de jovens e adultos.

Nos Círculos, quem já sabe ler e escrever se encontra para ler em conjunto, se aproxima do livro e aproveita a alegria de pegar em um texto e fazer sua própria viagem pelo conhecimento, pela cultura, pelas emoções.

Ao longo desta semana conheci homens e mulheres que em suas cidades estão cooperando para a leitura e para a vida das pessoas. Foram relatos emocionantes que marcaram a todos, professores e alunos.

Dos bolinhos de chuva mágicos da mãe da Diva à folia de Reis do marido da Maria Elza, das canções da Leopoldina (que na melhor idade vai pra frente de uma sala de aula pela primeira vez na vida!) à biblioteca da Terê em Maripá (que tem o livro das árvores dos professores Ticuna), foram muitas as histórias que lemos nas mãos das pessoas que contaram das festas, das danças, dos livros e das muitas dificuldades do dia a dia.

Da terra à leitura, saio desta semana com a impressão dolorosa que o interior pode se diluir, que as tradições populares do Brasil andam por aí ao nosso alcance e por vezes, não vemos.

A professora Maria Fiorato, contou-nos uma história que um aluno contou em sala. Falava de uma tradicional mistura do interior para dar brilho ao chão das casas, feita de barro, cinzas e excremento de gado. O aluno contou que sua avó, que usava a tal mistura, tinha o hábito de lustrar a cozinha fazendo desenhos para deixar mais bonito o trabalho. Começava pelos cantos e ia desenhando uma moldura de “SSS” no cômodo. Depois fazia flores para preencher, enfeitando a limpeza e a vida.

A professora concluiu emocionada que um indivíduo desses, para ela, era um produtor de cultura. Também acho e reconto aqui a história pra me lembrar que a gente sempre pode colocar mais arte na vida.

Saio de Faxinal pensando nas perdas e nos ganhos, nas dificuldades e nas alegrias, nas pessoas que vão levar estas histórias para seus Círculos de Leituras, alguns nas cidades, outros no campo, outros em assentamentos do MST, outros em aldeias indígenas e também em quilombos.

Lembro dos rostos, das conversas, das muitas vidas, muitas terras… Sonho com as muitas histórias que ainda vão ser contadas por todos nós.

Ouço de novo o sopro poderoso da criação que rondou minhas noites em Faxinal e fico contente por ter tido a oportunidade de mais este encontro com a diversidade humana, com o que nos faz iguais e diferentes.

Deixo aqui as nossas fotos das turmas, para deixar nas imagens, a história de cada um.

Um abraço apertado a todos os alunos, professores e organizadores que passaram pelas oficinas.

Boas leituras e até breve!

Turma Cor de Rosa
Turma da Canção
Turma das Polêmicas

A segunda vez

A segunda vez

A primeira vez foi com as danças do Alentejo.

Afinal, tinha que ser com o Alentejo, o sertão na versão portuguesa. O sertão onde me encontro, onde sou mais, onde o que há dentro da gente, ferve.

Eu não acreditava muito no virtual, ainda desconfio dele – por vezes, desbragadamente. Mas a verdade é que com o projeto Arquivo das danças do Alentejo fiz o meu primeiro blog.  Ele me levou a muitos lados que eu não conseguia alcançar. E melhor, trouxe novos amigos, grandes diálogos, ajudou também a propor encontros.

E assim, aqui me encontro, de novo, em um blog novinho em folha.

Desta segunda vez, invadem este mundo a dança, a música, o cinema, os livros e tudo mais que formos inventando aqui na Olaria.

Obrigada pela leitura e vamos nós!

Lia